sábado, dezembro 03, 2016

FORÇA CHAPE


A alma chora
Com a dor aguda
Do coração.
Um sentimento 
Maior que todos
Que une todos
A dor e a paixão 
O amor e a saudade
A essência 
Da raça humana
A razão da humanidade 
Solidariedade.
Força Chape.

Chl
Dez/2016

quarta-feira, novembro 30, 2016

MEDO DE AVIÃO

Diante do trágico acidente que vitimou o time da Chapecoense e vários jornalistas, na queda de um avião nos arredores de Medelim na Colômbia , no dia 29/11/2016, resolvi descrever o pânico que passei em uma viagem internacional que fiz 1983.

Havia participado de uma eleição em 1982, como candidato a prefeito de Santa Cruz , eleição geral no estado, para governador,senador,deputados federais e estaduais , prefeito e vereadores. Candidato pelo PMDB, perdemos a eleição em uma campanha longa e extenuante.
Para relaxar um pouco e sair do clima eleitoral que ainda persistia, resolvi fazer uma viagem para Miami, Cidade do México,voltando por Manaus, Fortaleza e Natal.

A partida em um Boeing 707 da Varig, que era o mesmo modelo do avião presidencial brasileiro, depois chamado de sucatão.
Saímos do Recife com uma escala em Belém, para reabastecimento e embarque de novos passageiros, a maioria, engenheiros americanos que trabalhavam com mineração na região norte.
Como não consigo dormir em viagem, fiquei lendo o máximo de tempo, mas a viagem foi tranquila e chegamos em Miami no início da manhã.

Depois de três dias nos EUA, fui ao aeroporto, para embarcar para a cidade do México. Fiquei em um hotel no centro da cidade. Após três dias , embarquei para o voo Cidade do México - Manaus, com escala em Bogotá, na Colômbia.
Aí, começou meu suplício.

Ao entra na aeronave, bem maior do que a anterior, sentei na janela e do meu lado, tinha uma imensa turbina que girava lentamente. Fiquei impressionado com o tamanho da turbina que estava sentado praticamente em cima dela.
Peguei a revista de bordo e constatei: eu estava embarcado em um DC-10 da Varig. Uma reportagem da Veja, sobre a queda de um DC-10, porque soltou uma peça do tamanho de uma caneta, tomou conta do meu pensamento e eu comecei a entrar em pânico, sem demonstrar. Não olhei mais para a turbina.

Decolamos e um pensamento constante começou a me assombrar : nunca mais vou ver meus filhos. Eram crianças entre três e dez anos.
Tentei ler, não consegui, quando abria o livro, enxergava a turbina se despregando. Fechei os olhos e tentei dormir, em vão, continuava vendo a maldita turbina. Afora o pânico, foi um voo tranquilo até Bogotá. Aí começou tudo de novo. Tivemos que desembarcar e aguardar uma hora e meia na sala de embarque do aeroporto, sem nenhuma explicação. Na minha cabeça logo vinha: é a peça que tá frouxa e eles vão apertar.

Cheguei em Manaus, era madrugada, o alívio era enorme, consegui olhar pela janela, enquanto o avião taxiava na pista e fixei o olhar em um avião da Vasp que estava estacionado com as turbinas cobertas por lonas azuis. Gravei aquilo na cabeça, sem nenhum motivo, mas gravei.
Fui para o hotel e por volta das nove horas da manhã, acordei e liguei a TV.
A notícia era que um avião de cargas da VASP, havia caído logo após a decolagem do aeroporto de Manaus. Era o avião que eu tinha visto na chegada.

Desci para o café no hotel e em seguida saí para procurar uma agência de viagens. Iria passar três dias em Manaus, mas remarquei minha passagem para o dia seguinte, na Transbrasil. Eu só pensava em chegar em casa e ver meus filhos.

No dia seguinte embarcamos pra Fortaleza,com uma escala em Belém, eu já estava no corredor,  queria distância de janela.
Quando pousamos em Belém que o avião parou na pista, avisaram que teríamos que desembarcar, por conta de um pequeno problema técnico, mas que logo, seguiríamos viagem.
Na saída do avião, escutei o comandante, um piloto jovem, dizer:- Isso só acontece aqui no norte, no sul, duvido que eles permitissem.
Pronto. O pânico voltou com força.

Passei duas horas no aeroporto de Belém com uma dúvida cruel:embarco ou não embarco; embarquei.
O voo foi tranquilo para Fortaleza, com uma escala em São Luiz, que eu nem sabia que havia, mas foi rápida e não precisei desembarcar.

Já em Fortaleza, no dia seguinte, procurei a Varig e antecipei em um dia minha volta pra Natal, sempre pensando, "um dia eu chego em casa".
No outro dia, cedinho, embarcamos em um avião novo da Varig, era o Airbus. Fiquei animado, avião novo, vigem rápida, seria um fim do meu suplício.
Sentei na poltrona e a aeromoça me trouxe o jornal O Povo de Fortaleza e eu comecei a ler. A notícia :
Ontem um avião da Transbrasil pousou de bico, sem o trem de pouso dianteiro abrir, no aeroporto de Belém. O número do voo era o mesmo que eu voei dois dias antes. "Pronto, é perseguição" pensei.
Em cinquenta minutos chegamos no aeroporto de Parnamirim e eu pude ver o sorriso e o brilho de alegria nos olhos dos meus filhos.

Imaginei nunca mais andar de avião, mas, as estatísticas me convenceram, o meio de transporte mais seguro do mundo é o aéreo.
Voltei a voar um ano depois, sem pânico, mas com receio. Entre 1998 e 2002, percorri todo o estado do RN, em aviões monomotores e bimotores, nas campanhas políticas.

Dois anos depois da minha viagem, 1985, houve um grande terremoto na cidade do México e derrubou o hotel que eu fiquei em 1983.
Ainda pensei em viajar pra Areia Branca e dar um mergulho numa daquelas montanhas de sal grosso, mas desisti.

Chl
Nov/2016




quinta-feira, novembro 24, 2016

RUA PRIMEIRO DE MAIO

Comecei a frequentar a rua primeiro de maio quando ainda era criança e acompanhava meu pai para a matança, que era o matadouro de bovinos, ovinos, caprinos e porcos.
Depois, continuei indo pesar bois que vendíamos, mas a maioria das vezes eu ia mesmo era pro cabaré, que é na mesma rua.
Instalados lá, estavam, Maria Gorda, Gonzaga, Micael, Chicó de Maria Anjo, além das avulsas que tinham suas próprias casas, como Cearense, Jucá, Eliene e outras.

Entre 1992 e 1996, comecei a trazer bois para vender em Santa Cruz e arredores, do estado do Tocantins, das cidades de Colinas e, principalmente, de Araguaína.
Vendia pra Elino e Pedro Duca, Francisquinho, Luiz Bino, Paulo de Irineu, Cícero Nazário, Abel, Fernando de Paizoca, Antônio do Açougue e outros. Eu pesava bois, praticamente todos os dias da semana no matadouro, e quando era gado da região, eu comprava com Chico Bernardo e depois com Erivan Nazario.

Encontrava sempre com Montila e sua mãe Isabel, que era irmã de Nazaré que morou muitos anos na casa de Tio Zé Dadá, com Celuta e Celusia, depois morou na nossa casa por muito tempo. Mamãe gostava muito de Isabel e a chamava de Mistral, por conta da colônia, que ela usava muito. Outra que prestou serviço nas duas casas, foi Das Neves, engomadeira, muito querida por todos nós.
Também encontrava sempre com Zé Romão, Raimundo Preto, Tricola, que moravam nas redondeza, além dos magarefes , Calango, Gô, Claudio, Birino e outros, que ajudavam na matança.

Os bois eram muitos fortes e espantados e quando chegavam no curral do matadouro, era um corre corre grande. Um dia, eu conversava com Manoel Pataca, que foi pesar um boi da Boa Vista e João Nazário que vendia carne no mercado e de repente entra um boi grande e arisco, João e Manoel Pataca, subiram numa bancada de cimento e ficaram de quatro e morrendo de medo, mas o boi, se engraçou com minha cara e partiu pra cima, eu corri pra entrada do matadouro que estava com o portão de ferro fechado, então subi nas barras e fiquei pendurado nos caibros. Começou juntar gente na frente e gritar, foi quando os magarefes começaram a jogar coisas no boi que virou-se e correu para o curral e na velocidade , saltou o muro do matadouro e caiu em cima de uma cerca de faxina da casa vizinha, que servia de proteção do quintal e ficou totalmente destruída.

Passado o susto, o boi havia corrido pelo rio e voltou pra fazenda, eu desci do portão e pra curar o medo, fiquei rindo com as caras assombradas de João Nazario, vermelho da cor de uma pimenta e Manoel Pataca, branco como uma tapioca.
Ficamos contando a presepada , rindo e mangando da cara um do outro, quando entra uma senhora, com seus 75 anos, braba , querendo saber quem era o dono do boi que destruiu a cerca dela. Era Jucá, uma das profissionais mais antigas e respeitadas do cabaré.

Apresentei-me, -Como vai Jucá ?
- Chaguinhas aquele santanás é seu ? Venha ver a desgraça que ele fez no muro da minha casa.
Coloquei a mão no ombro dela, sentindo que ela estava mais tranquila, sabendo que eu era o dono do boi. Realmente, o peso do boi, destruiu a cerca e na saída ele destruiu o resto com os chifres.
No dia seguinte mandei refazer toda a proteção do quintal dela , que ficou novinho em folha.

Duas semanas após, eu estava lá pesando os bois, quando entra Jucá e pede pra me chamarem , na entrada do matadouro.
Terminei de pesar um boi e fui lá, pensando, "o que será desta vez" ?
- Como vai minha amiga, algum problema ?
- Eu vim lhe agradecer pelo serviço do meu muro, ficou ótimo. E queria lhe dizer um negócio.
- Pois então diga, mulher, o que é ? Perguntei.
- É que você pode dizer ao santanás do seu boi, que se ele quiser pular em cima da minha casa, pode pular, só me avise a hora que é pra eu sair.
E arrematou: - Ela tá "distiorada" mesmo .

Chl
Nov/2016



sábado, outubro 08, 2016

DIA DO NORDESTINO

Nascido  na diversidade
Tempo ruim e tempo bom
Sua inteligência é um dom
Do campo pra universidade 
Abrilhantando a cidade
Vivendo ou enfrentando a morte
Sobrevivendo com sorte
Sua coragem é pungente
Valorizando ser gente
O nordestino é um forte.

Chl
Out/2016

sexta-feira, setembro 23, 2016

ENGOLE BRASA

Manoel Possidônio , conhecido como Manoel Engole Brasa, era um comerciante de jóias ambulante e garimpeiro . Andava nas ruas de Santa Cruz com uma pasta, com vários "panos de jóias". Trata-se de uma peça de veludo, geralmente azul, encrostada de jóias de ouro e brilhantes. Uma pasta de couro, larga, grande e sempre andava bastante pesada. Vivia bem, ganhava bastante dinheiro, o que lhe proporcionava uma vida bem estável com a sua família .
Manoel, entretanto, gostava de parar em um bar , quando terminava sua tarefa comercial, para tomar uma bebida. Os amigos e conhecidos, tomavam cervejas, conhaques, mas Engole Brasa, apreciava a aguardente. Tomava bem e com muita frequência, voltando, as vezes pra casa, meio embriagado.
Com o passar do tempo, Manoel aumentou sua frequência nos bares e diminuiu suas vendas de ouro. Sem se dar conta, aos poucos foi se tornando alcoólatra e a sua pasta a ficar vazia e muito maneira, até que chegou um dia e ele não tinha mais mercadoria.
Chegava pela manhã, logo cedo, no bar de Chagas Farias, com uma pasta recheada e pesada, que um dia os amigos resolveram abrir e em vez de ouro, tinha uma rede, para encher a pasta e um paralelepípedo, para ficar pesada.
Chegava tremendo, da bebida do dia anterior, estirava a mão trêmula sobre o balcão e pedia :
- Me dê uma brasa aí, que a tremedeira hoje tá com a "mulesta".
Depois de três "brasas" ele estendia as duas mãos sobre o balcão, olhava para as pessoas e dizia:
- Tão vendo, já parou de tremer e agora eu vou engolir outra brasa.
Foi daí que surgiu o apelido : Manoel Engole Brasa.
Antônio, era irmão de Manoel, garimpeiro também e resolveu um dia , abrir uma mercearia, com um bar, na Rua Caminha Fiúza.
Era baixo, sorridente, falava com a língua meio enrolada, mas era uma pessoa magnífica . Honesto, trabalhador e gente muito boa. Ele e o soldado Andorinha, foram as duas únicas pessoas que eu permiti garimpar na propriedade da nossa família , sem nunca conferir o resultado de suas pesquisas, porque confiava integralmente nos dois.
A rapaziada da cidade que gostava de tomar um banho no "Açude Novo", na volta entrava no bar de Antônio Engole Brasa, que mesmo sem beber, herdou o nome do irmão, e que todos passaram a chamar o "Bar do Brasa ".
Eu, Lourencinho, meu irmão, e mais, Serafim, Iaponam ,Livio, Crézio, Bubu, Joca Lindo, Edson Cara Curta, Zé Domingos, Antônio Luiz de Zé Dobico, Rosemilton, Dinarte de Pedro Severino, Félix de Zé João, Djair de Ivahy, Gilvan de Talau, Lila, Hiltinho , Wilson de Cabral, Mananciel, Hudson Fonsêca, Fabinho de Lula Farias, Geraldo Golinha, Fernando Bocão, Helio Mendes, Zezinho de Hosana, Roberto Umbelino e Munheca e vários outros companheiros de juventude.
A turma chegava sentava na mesa e começava a azucrinar o pobre do Brasa:
- Traga um litro de Pitú, duas coca-colas , três limões e uma corda de piaba pra tira gosto.
As cordas de piaba, ficavam no quintal , penduradas nos caibros e cobertas de moscas. O Brasa vinha com uma peixeira, batia na corda, as moscas voavam e ele cortava uma fieira de piabas, levava pra cozinha e jogava na frigideira, já com óleo fervente e fritava. Era bom demais, uma iguaria que eu acho que só ficava boa daquele jeito, por conta das moscas. Tinha também, curimatã, traíra, cará e galinha torrada.
Serafim andou por São Paulo um tempo e chegou cheio de novidades em Santa Cruz. Só não chegou chiando, porque os que eu conheci que foram pra São Paulo e voltaram chiando, eram Munheca e Tino de João Chicó, meu primo.
Fomos para o bar de Brasa e quando pedimos as bebidas, Serafim gritou:
- Brasa, traga um Pizza Calabresa e depois um Espaguete ao Sugo - comidas bastante comuns em São Paulo. Brasa gritou de lá :
- Hoje num tem esses troços aqui não, mas Sábado eu compro na feira. Hoje só tem a piabinha que você gostava muito antes de ir pro Sul.
Depois Antônio melhorou de vida e comprou o prédio onde era a fábrica do Molho Inharé e transformou em um hotel : Hotel do Brasa. Era o maior hotel da cidade.
Um belo dia , chega Iaponam com uma turma de Natal em três carros, com umas moças , para beber e farrear na cidade. Ele que morava em Brasília, quando chegou, soube que o Brasa estava com um hotel novo e dirigiu-se pra lá , pra tirar o juízo do coitado do Antônio. Chegou lá, foi entrando, viu o Brasa na recepção e foi gritando:
- Brasinha meu amigo, vim prestigiar seu hotel, estou com uns amigas e umas amigas e quero três apartamentos.
Brasa olhou pra Iaponam , fez uma arzinho de riso e meio gaguejando disse :
- Gordinho, o meu hotel é organizado e pra você se hospedar com seus amigos, têm duas condições.- Iaponam disse, não tem problema , eu resolvo, quais são as condições?
- Bem Gordinho , primeiro você me paga um vale que tem aqui, desde o tempo da Caminha Fiúza e depois me traga a certidão de casamento sua com essa moça, porque aqui é um hotel familiar. Se resolver, aqui estão as chaves.
Iaponam disse :
Vôtss, sendo assim eu vou me hospedar lá em Maria Anjo.
Chl
Set/2016

sábado, setembro 03, 2016

MORTES QUE MARCARAM A CIDADE

 Quero relatar alguns fatos, tristes, mas que marcaram a comunidade santacruzense.

Dudu de Plácido, era um rapaz feliz, brincalhão, mas também valente e esquentado. Jogador de futebol, atuava no campo 4 de Março, administrado por Anisio Carvalho.
Gostava de se divertir com os amigos e tomar uma cervejinha no reservado do bar de Geraldo Lourenço e Tia Litinha, que era na rua Grande e fazia esquina com o Beco de seo Plácido . Seo Plácido, era o pai de Dudu e tinha uma mercearia no beco, bem próximo do bar de Litinha.

Outro cliente do bar era Zé Pinto, que parava o caminhão na rua Grande e ia para o reservado do bar , que ficava na parte de trás. Um dia que Zé Pinto estava no bar , estavam sentados em uma mesa do lado, Dudu e Nilson Lima , tomando uma cerveja e batendo papo.

Sabendo que Dudu frequentava muito aquele local, pois era vizinho de sua casa, Coleta que teve desavenças anteriores com ele, entrou no bar, acompanhado com um amigo, chamado Zé Vicente, já com uma faca na mão. Dudu estava de costas , mas foi avisado por Nilson e levantou-se, já para enfrentá-lo, quando foi segurado por trás por Zé Vicente, Coleta  desferiu vários golpes de peixeira e ceifou a vida do jovem goleiro do time de Santa Cruz, Dudu.

Coleta ficou preso na cadeia pública da cidade, eu mesmo, ainda muito criança, o vi várias vezes, sentado na mureta da delegacia, quando passava na frente e papai dizia, " esse foi quem matou Dudu".

Manoel Benício, era um homem de estatura baixa, com um bigodinho e usava um chapéu preto de massa, geralmente estava calmo, era alegre e até sorridente. Eu o conheci já como prisioneiro na delegacia de Santa Cruz, em regime semi-aberto, trabalhava como pedreiro. Só foi terminar de cumprir a pena e ser liberado que Manoel Benício começou a ter problemas. Um dia cismou e saiu de casa, murmurando por onde passava:
-Hoje eu mato um.
Passou na frente do estabelecimento de Moisés Pinheiro, onde hoje é o mercado público, chegou na porta, encarou Moisés e repetiu: - Hoje eu mato um - Moisés abriu a gaveta, puxou um 38 cano longo e respondeu - Aqui você vai levar é chumbo, se vier com essa conversa.
Manoel saiu ligeiro de lá e tomou o rumo do Paraíso, atravessando o rio Trairi, que estava seco, correndo apenas um filete de água misturada com esgoto. No início da Av. 1, encontrou um baiano, que se dizia, pai de santo, trocou duas palavras e deu-lhe uma peixeirada certeza no coração e correu.

Tempos depois, já em regime de condicional, chegando perto de uma banca de carne na feira, iniciou uma discussão e antes que pudesse pegar a faca, o jovem marchante que já estava com uma faca amoladíssima de cortar a carne, foi mais rápido e acertou Manoel Benício, com várias cutiladas e o deixou estirado sem vida na calçada da feira.

Em outro dia de feira, na esquina da farmácia de Sebastião Rocha, Assis de João Salustio, desentendeu-se com Zé de Floriano e no meio da discussão, Assis sacou um revólver e disparou várias vezes em Zé que foi atingido e caiu na rua. Terezinha Nunes, filha de Zé Nunes e Liô Ferreira, vinha subindo  a rua Grande, na calçada,  assustada, caiu com um desmaio e ficou no chão. Assis ao ver Tetê no chão, imaginou que a tivesse acertado com um tiro , apavorado, apontou o revólver contra si e disparou. Tetê foi socorrida sem ferimento, apenas com um grande susto e na rua ficaram estendidos os corpos de dois rapazes, filhos de Santa Cruz.

Chl
Set/2016

domingo, agosto 28, 2016

A MISSA DE DOMINGO

Em Santa Cruz, a missa do domingo sempre foi tradicional, em dois horários, pela manhã, cedo, e no início da noite. Papai ia sempre pela manhã e nos levava, Jair, Lourencinho e eu. Íamos caminhando de casa até a igreja, mas no caminho, na rua Grande, ele entrava na Farmácia de tio Zé Dadá para conversar. Geralmente, encontrava por lá, Clovis Medeiros, Clodoval, Severino Paulino, Orlando Mouco, João Ataíde e Gastão. Na saída , invariavelmente, tio Zé Dadá, nos dava uma latinha de Pastilhas Valda e nós fazíamos a festa com ela.

Na missa da noite podia-se encontrar na calçada da igreja, Zé Matias, Irineu Duca, Pedro Nunes, Dula, Pedro de Tico, Joaquim Tavares, Joca Moreira, Chico Adriando, Chico de Juca, Edvaldo Umbelino, Mané da Viúva,Manoel Anisio, Sebastião Penha e mais alguns outros, moradores da rua Grande e da rua Daniel. Depois da missa, sentavam-se na calçada de Furtado, em frente da casa de Miguel Cury, Joseluce, Josias Azevedo, Antônio de Hosana,Miguel Farias, seo Quim Quim, Zé João, Sérvulo Orago e Dr. Demócrito.
Na outra esquina, do bar de Seo Lauro, em frente a barbearia de Pedro Dantas, ficavam, Severino Culête, Mosquitinho, seo Horácio, Pedro Amarante, Zé Walderi, Zé Dadão e João Lucas.

Um dos frequentadores da missa era Absalão, que morava na rua Ferreira Chaves, ao lado da casa de seo Gato e Chico Bento, e do outro lado, Alexandre Calça Curta e seo Aquino. Em frente, moravam Pedro Rodrigues, dona Mariinha de Zé de Gan ( minha avó) e seo Ribeiro.
Na igreja existiam uns bancos particulares, pertencentes a algumas famílias e também, cadeiras individuais, para sentar e se ajoelhar. Absalão tinha uma cadeira dessas na igreja.

João de Gan, ainda jovem, frequentava a missa da noite e depois ia para a praça, conversar com os amigos e olhar as moças. Gostava de passar na casa de Cleto Antunes, vizinha do bar de seo Lauro, pra ver se via Lenise. Sempre foi muito brincalhão e gostava de mexer com os amigos e dar boas risadas.

Um dia chegou na igreja e foi entrando na hora da missa. Viu Absalão, ajoelhado em sua cadeira, no meio da igreja, rezando com a cabeça abaixada, entre as mãos. João, foi se aproximando, silencioso, como estava toda a igreja, com Padre Emerson, fazendo a oração, falando baixinho. Chegou perto de Absalão e com os dois dedos indicadores, cutucou, com força, as costelas do coitado que rezava. Absalão, pego de surpresa, deixou escapar, sem querer, um pum tão alto que toda a igreja se virou pra ver o que era. Absalão continuou de cabeça baixa, rezando, e olhando com rabo do olho, para ver quem danado tinha feito aquilo. Os olhos de todos na igreja, só enxergavam João de Gan, que estava em pé, logo atrás de Absalão. Todos imaginavam que havia sido João, o autor do estrondo.

João, vermelho, da cor de um tomate, começou a andar de costas, passo a passo, até a porta da igreja. Sem falar com ninguém, desceu os batentes da calçada e saiu andando rápido, pelo beco das almas, passou pela praça e foi direto para o Bar Savoy, de Augusto Fernandes. Olhou pros fundos do bar e viu, Paizoca e Zé "Zanolho", jogando na sinuca de Chicó Flor. No bar, viu Zé Cabral, da padaria, sentado em uma mesa, tomando cerveja e comendo rodelas de pão com molho Inharé, fabricado em Santa Cruz. Puxou uma cadeira, sentou na mesa de Cabral e gritou:
-Assiiiss , traga uma cerveja bem gelada.
Virou-se pra Zé Cabral e falou:
Cabral, por favor, vamos mudar de assunto. - Cabral, sem entender, respondeu baixinho, - mas nós não começamos nem a conversar.
João pensava que a cidade toda já sabia, da explosão da igreja.

Chl
Ago/2016

sábado, agosto 20, 2016

JOÃO DE TICO E SABOROSO



Geralmente o que escrevo aqui, são relatos baseados em fatos reais, evidentemente, adequando às características do texto. Contos, causos, quase sempre com humor e descontração, mas , no caso deste texto, preciso descrever um fato triste, porém marcante para a comunidade santacruzense .

João de Tico morava na rua Lourenço da Rocha, esquina com a rua Pe. João Jerônimo, de frente para a casa de Miguel Farias.Saboroso era o apelido de um cidadão que andava pelas ruas da cidade, com um caldeirão grande na mão , vendendo doces "sonho de noiva". Andava na cidade, de bermudas, com o caldeirão e gritando alto: saborosoooooo.
O que lhe fez jus ao apelido.

João de Tico, casado com a Professora Margarida Queiroz, pai de Marcos, conhecido na cidade como Tchan. Saía diariamente para seu sítio na Caiçarinha, montado em seu possante jumento, mestiço de pêga, bom de sela, com a passada macia e também, bom de cangalha, quando era preciso. Na hora de sair, colocava dois litros e meio de milho, de molho em uma bacia, para alimentar o jumento, na volta do roçado, por volta das onze e meia da manhã, todos os dias.
Era magrinho de meia altura, simples e alegre, falava "assungando " as calças, para se fazer entender. 

Um dia voltou do roçado, exatamente onze horas, para chegar em casa às onze e meia, hora de alimentar o jumento, que já saía com o passo apressado, guiado pelo instinto e a vontade de comer. Passou numa passada ligeira por toda extensão da Cravina, e João, de olho na BR.

Saboroso, passou pelo Apolo 11, nessa mesma hora, atravessou a pista, ao lado da casa de Maria Anjo, e desceu na margem da rodovia, gritando, saborosoooooo.Já ia passando no cruzamento da BR com a continuação da rua da Cravina com a entrada para a cidade, próximo da oficina de Vicentinho e da casa de João de Gan.
Do outro lado, vinha descendo João de Tico, já freiando o jumento , que descia muito rápido, com a cabeça virada, sem atender ao freio.

Vindo de Currais Novos, na direção de Natal, apontou uma carreta cegonha de transportar automóveis ,que passou muito veloz na frente do posto de gasolina e desceu ao lado do DNER.
Ao se aproximar do cruzamento o motorista viu o jumento de João de Tico , começando a atravessar a pista, buzinou estridente, tentou freiar e desviou o caminhão. Ao tentar desviar, entrou no acostamento e atingiu em cheio, Saboroso, que foi atirado longe, na vala encostada ao início do Riacho do Pecado.
Na manobra brusca, a carroceria acertou com força, João de Tico, montado no seu jumento que foi atirado longe.

Foi uma comoção geral em toda a cidade de Santa Cruz.
Sinto-me na obrigação de relatar, para resgatar a memória daquele povo e das pessoas que ajudaram a construir aquela comunidade.

Chl
Ago/2016

sexta-feira, agosto 19, 2016

LUIZ DE PRIMO

Primo Pereira era um homem de estatura média, com uma perna mais curta do que outra, proprietário da Fazenda Camará, na Serra de Santo Alberto. Homem respeitado por sua seriedade, simplicidade e honradez. Após a morte de sua esposa, na cidade de Cruzeta, onde moravam, ele dividiu a propriedade entre os filhos, Luiz, Pedro, Manoel e José. Luiz ficou com a sede da fazenda e os outros três ficaram com as partes anexas. Cada um fez sua própria sede.

Pedro, Manoel e José eram agricultores e viviam inteiramente dedicados às suas famílias. Luiz, além de agricultor era comerciante e fazia negócios nos municípios vizinhos de Santa Cruz, como Campo Redondo e Coronel Ezequiel. 

Primo resolveu tomar Lourenço como compadre, pois eram amigos e vizinhos de propriedade, e o afilhado escolhido foi Luiz, que só chamava seu padrinho de "Padim Lórenço". Vendia toda a safra de algodão na usina de Nóbrega & Dantas que Lourenço era o gerente. Todas as atividades da fazenda, que Luiz tinha alguma dificuldade, consultava "Padim Lórenço.

Tempos depois quando assumi a gerência da usina e passei a comprar a safra de algodão de todos os filhos de Primo, que eram meus amigos, especialmente José que era meu vizinho na rua Antônio Henrique, comprava também todo o algodão que Luiz adquiria de outros agricultores, como comerciante.
Em julho de 1981, com o falecimento do meu pai (Lourenço), resolvi levar minha mãe (Marinete) em uma viagem de 25 dias pela Europa, para ajudar a superar a perda e afastá-la um pouco do clima pesado que ficou em nossa casa. No final de 81 e início de 82,viajamos.

Deixei tudo acertado no Banco do Brasil, através de promissórias rurais, no dia 15 de Dezembro de 1981, todos os pagamentos do algodão recebido dos maiores fornecedores e que ainda entregavam o produto. Preço feito, quantidade acertada, pagamento assegurado, viajei.
Quando estou no hotel em Viena, na Áustria, recebo um telefonema de Santa Cruz, era Fátima minha secretária, avisando que houve um erro do funcionário do banco, justamente no contrato de Luiz e precisava de um nova assinatura minha. Eu ainda demoraria duas semanas pra voltar. Foi o suficiente. Os brincalhões começaram a aperrear Luiz, dizendo que eu havia fugido com o dinheiro dele.

Luiz que acreditava em tudo, saiu falando com todo mundo dizendo:
- Chaga de Padim Lórenço, pegou meu dinheiro e danou-se pro "estrangeiro"e nem sei se volta mais. O pior é que Padim morreu e eu não tenho quem me ajude.
Mandei pedir pra Lourdes Apreciado, em quem ele confiava, que era chefe do escritório, para explicar que , que em 15 dias eu chegaria e acertava tudo.
Xavier, gerente do BB, também ajudou a tranquilizar o agoniado Luiz.

Papai quando deixou a gerencia da usina, dedicou-se inteiramente à fazenda e duas vezes por anos, vacinava o gado contra o baba (aftosa) e incentivava os vizinhos a também vacinar o rebanho deles.

Um dia encontrou Luiz e foi logo ouvindo, "bença padim",-Deus te abençoe, meu filho - respondeu papai- já vacinou seu gado ?
- Ainda não.
- Pois compre a vacina na cooperativa que no domingo eu levo os homens pra vacinar.
Meia hora depois chega Luiz no escritório.-Pronto, comprei. Ô remeidim caro da mulesta, padim. Domingo eu espero o senhor.

No domingo, logo cedo, papai pegou Manezão e Cassimiro, que trabalhavam na usina e seguiu pra Sto. Alberto para levar Zé Zuca, Zé Preto e Olinto Lourenço, para ajudar na vacina.
Chegando no Camará, o gado já estava preso, eram uma 50 reses, e começaram a laçar os mais mansos e vacinar.

Uma hora depois, já haviam vacinado mais da metade e restava só o gado mais arisco, então Lourenço pediu:
- Luiz, meu filho, traga uma parede (tira-gosto) pros homens tomarem uma, que aqui só tem "imbu".
Luiz imediatamente gritou :- Joana , padim tá pedindo uns pedaços de galinha.
Salete prontamente trouxe e começaram a comer e beber. Recomeçaram a vacina e o gado mais arisco começou a dar trabalho, pra laçar e pegar "a muque".

Mais uma hora e ainda faltando umas cinco reses, Lourenço pediu de novo, outra parede.
Luiz, levantou-se foi até a cozinha e disse, baixinho:
-Salete, bote logo meu almoço, antes que padim e esse cabras acabem com a galinha toda.

Chl
Ago/2016



O MOTORISTA DO PADRE

Mosenhor Emerson Negreiros, foi pároco de Santa Cruz, por muitos anos. Foi responsável pela construção da atual Igreja Matriz, de Santa Rita de Cássia, edificada no mesmo local onde antes existia uma pequena igrejinha.
Tinha muitas atribuições na comunidade, além de administrar as capelas dos distritos vizinhos, como, Melão Japi, São Bento do Trairi, Campo Redondo, Lajes Pintadas etc. Para isso utilizava um Jeep Willys, que percorria todas essas localidades, com o auxilio de um motorista, Veludo.

O padre tinha um grande envolvimento com a comunidade e participava de ações comunitárias como esporte, música , teatro e cinema. Reunia alguns jovens, no alpendre da Casa de Dona Júlia, onde hoje é o Bairro 3 a 1, para tocar sanfona, violão e cantar.

Veludo era seu auxiliar de todas as movimentações e viagens. Era um negro forte, alto, risonho e brincalhão, toda a cidade gostava de Veludo.

Em uma de suas folgas, avisou ao padre que iria com uns amigos para uma festa de rua , com barracas e leilão, em Campo Redondo.
Chegando na festa, sentou-se em uma mesa e imediatamente pediu uma cerveja, casco escuro e super gelada; já botando banca.

A cerveja chegou, começaram a beber, pediu mais outras, até que começou o leilão. A primeira galinha assada que saiu, Veludo arrematou, apenas levantando o braço, sem sequer saber qual o preço que estava. Continuou bebendo e arrematando, apenas as galinhas, que já somavam seis.

Já era madrugada, o leilão havia terminado, quando as pessoas começaram a ir pra casa e a festa dando sinais de terminar. Veludo , nessas alturas, já estava meio embriagado, mas bem consciente de tudo que se passava. Olhando para um lado da barraca, percebeu que a comissão do leilão estava passando nas mesas para arrecadar o dinheiro dos arrematantes. Veludo era um dos maiores.

Quando a comissão chegou na mesa vizinha, Veludo encheu um copo com cerveja, bebeu todo de um gole só, olhou para um lado e para o outro, revirou os olhos e caiu com o rosto em cima da mesa, quebrando garrafas, derrubando copos e o prato de farofa com os ossos das galinhas.
- Corre, corre, acudam aqui - gritava o chefe da comissão do leilão.
Veludo, babava, revirava os olhos, roncava alto e respirava agitado com dificuldade.
- Pega um carro e leva esse homem pra Santa Cruz agora, direto pra Maternidade (único hospital que existia), manda acordar Dr. Ferreirinha ou Dr. Demócrito para acudi-lo - ordenava Manoelzinho Norberto, tabelião.

Os amigos de Veludo que tinham fretado um jeep de quatro portas, para ir à festa, colocaram-no deitado no banco de trás e aceleraram para Santa Cruz. Depois da descida da Serra do Doutor, quando passou na Malhada Vermelha e entrou na curva do Riacho Fechado, de Joaquim Tavares e chegando na entrada para Lajes Pintadas, Veludo abriu os olhos e perguntou - Já passamos do Bento Nunes ? -Já, respondeu Meireles - já estamos chegando na entrada do açude do Alívio. Veludo levantou-se e disse:
- Vamos tomar a saideira lá em Maria Anjo, que eu faço um vale lá. Vou passar uns dois anos sem ir em Campo Redondo.

Todas as vezes que o padre ia pra lá, Veludo tinha febre, diarreia, dor de cabeça etc. mas pra Natal , não tinha doença que impedisse porque ele adorava a capital.

Mons. Emerson ia com frequência à Natal, fazer compras para a paróquia e resolver alguns assuntos da Diocese. Em uma dessas viagens ele pediu para veludo passar no Alecrim, na Igreja de São Sebastião, para trocar umas ideias com o pároco de lá. Entrou na casa paroquial, ao lado da igreja e Veludo estacionou o Jeep do outro lado da rua, na sombra de um "pé de fícus", em frente a uma padaria.

Eram quatro horas da tarde e Veludo já estava sentindo fome e sabia que só iria tomar uma sopa, mais tarde, lá nas Marias , depois da Reta Tabajara, pois o padre sempre parava lá. Justo nessa hora, a padaria começou a retirar do forno, o pão da tarde e o cheiro invadiu as narinas de Veludo, que encheu a boca d'água. Entrou na padaria, pediu um pão francês dos grandes, comprou 50 gramas de manteiga de lata de 18 kg, daquela que Dona Zefinha, vendia na padaria e Waldeci de Mário Pinto, vendia na feira, enrolada num papel celofane. 

Encoutou-se no pé de fícus e começou a comer o pão. Nessa hora, passou uma senhora, elegante, bem vestida e puritana, que devia ir para a igreja se confessar; olhou pra Veludo, com desdém e falou, em um tom grave:
- Devia ter acanhamento, comendo um pão no meio da rua.
Veludo, bem calmo, olhou pra mulher e respondeu :
- Eu vou bem alugar uma casa só pra comer um pão.

Chl
Ago/2016



sábado, agosto 13, 2016

O LIVRO DO CARTÓRIO

Zé Fonseca era o tabelião do cartório de registros civis, antecessor de Manoel Soares de Oliveira, donominado Sgundo Cartório , o primeiro cartório era o de registro de imóveis, do tabelião João Ataídes Pereira.
Naquela época todos os registros eram escritos à mão em livro próprio e com tinta líquida e pena ou caneta tinteiro.
O tabelião José Fonsêca, chamado, Zé Fonsêca, costumava transcrever todos os registros de uma vez só, cada dia pela manhã, em seguida colocava o livro em um lajeiro raso que existia na frente de sua casa. Lá estavam todos os registros de nascimento, casamento e afins.

Um belo dia , após a transcrição de alguns registros, utilizando uma tinta novinha recém-comprada, Zé Fonseca, abriu o livro no lajeiro, embaixo de um sol brilhante de verão e entrou em casa para esperar a tinta secar e recolher , já devidamente seco no ponto de guardar na prateleira.
Uma pessoa chegou para fazer um registro de nascimento e como era conhecida do tabelião, sentou-se e puxou conversa para atualizar os assuntos da cidade e contar as novidades dos amigos comuns.

Depois de uma hora e meia de conversa, Zé Fonsêca, pediu licença, levantou-se e saiu para pegar o livro. Tomou um susto, o bendito livro não estava no lajeiro. Ele correu até mais adiante procurando e percebeu em um canto da rua perto de uma pequena moita de mato e grama pé de galinha, uma coisa escura e logo percebeu que se tratava da capa do livro. Apavorado, pegou o livro , que só tinha as capas e levou pra casa. Na volta percebeu uma vaca que andava procurando o que comer, com os restos de umas folhas de papel na boca. Ele disse pra si mesmo:
- A vaca comeu meu livro.

Voltou pra casa chateado e tratou imediatamente de comunicar ao juiz o acontecido , explicando que

só alguns registros haviam-se extraviado. O juiz compreendeu e disse:
- Espero que não haja confusão, quando alguém precisar de uma certidão de alguma desses registros perdidos.

Passado algum tempo, a cidade inteira sabia da história do livro. Aí aconteceu o primeiro caso, a mulher descobriu que o marido tinha uma amante e ameaçou a separação.
- Vou deixar você, cabra safado, descobri que você tem uma rapariga, desgraçado.
- Tenha calma mulher - dizia o marido, tentando acalmá-la, vamos tentar resolver com calma.
- Calma o que, safado, vou agora mesmo no cartório pegar uma certidão do casamento e entregar pro juiz e pedir o desquite e a metade do que você possui.
- Não adianta mulher - respondeu o marido - melhor ter calma e tentar resolver.
- Não adianta por que, seu bandido safado ?
O marido que sabia de tudo da história do livro , respondeu bem calmo.
- A certidão que você quer pegar, tava no livro que a vaca comeu, então é melhor se acalmar.

Outras vezes que alguém procurava o cartório para pedir certidão sem importância e trabalhosa, Zé Fonsêca, não pensava duas vezes, respondia em cima da bucha.
- Essa certidão tava no livro que a vaca comeu.
A partir daí, sempre que existia dúvida em qualquer evento onde se perguntava, " Ele tem certidão?" , a resposta era sempre a mesma, " Tem, mas tá no livro que a vaca comeu" .

Chl
Ago/2016