quarta-feira, agosto 03, 2005

O POUSO DO TETÉU

Arpege

Sexta-feira, oito da noite, entramos no aero-willys azul 65, e saímos a procura de um bar, de preferência um bar onde houvesse umas meninas, que pudessem nos acompanhar na noitada. Fomos ao Pouso do Tetéu.
Paramos o carro na Quinze e entramos no bar. –Traga um litro de Montilla e um tira-gosto de primeira.
Levantei fui até o garçom e indaguei se tinha gia, ele respondeu que sim e pediu pra escolher. Fui até um compartimento da cozinha onde havia um pequeno tanque de cimento, cheio de gias.-Pode escolher, falou o cozinheiro. Escolhi duas das maiores, sem pegar com as mãos apenas apontando. O cozinheiro colocou em cima de uma pequena tábua de madeira e com um facão amolado decapitou a rã e em seguida puxou toda a pele deixando-a nua parecendo uma moça no banho.
Voltei pra mesa e perguntei pro gordinho Batista, que estava conosco :-Você gosta de gia?
-Deus me livre, você tá louco? Acho que vou vomitar só de pensar naquele sapo nojento.
Tchuff, cuspiu no chão, temperando a garganta. Foi porisso que pedi um galeto novinho pra tira-gosto, pois sabia que você não comia rã.
A gia vinha em uma pequena travessa, forrada de alfaces, rodelas de tomate,cebola cortada , pedaços de queijo de coalho e azeitonas verdes, ladeados por uma porção de farofa, feita com a graxa da gia.
O prato era tão arrumado, que ninguém conseguia distinguir a rã de um galeto. O gordo Batista comeu até topar e pediu mais dizendo;- Ou franguinho gostoso, traga outra porção .
-Você acabou de comer gia, seu besta.
-O quê? Garçon , vou te matar! É verdade?
-É, sim senhor.
Então não traga mais não seu desgraçado, já comi, agora tá sem jeito.
Enquanto o gordo brigava com o garçon, entraram três meninas no ambiente. Eu estava sentado , encostado na parede, pra me proteger, porque no Pouso do Tetéu, de vez em quando, tinha briga . Na cintura um Smith and West 32, niquelado e cabo de madrepérola.
Convidamos as garotas pra sentar e nos ajudar a tomar o litro de Rum.
Depois de algumas horas, bebendo e escutando música brega, perguntei:-Tem algum lugar bom pra gente ir, conversar mais sossegado e a sós?Leila respondeu:- Tem Margô. Fica ali na dezeseis, perto do King Nigth Club de Rita Loura.
-Então vamos pagar a conta e seguir pra lá.
Quando chegamos, não tinha nenhum movimento na sala de recepções, o bar já estava fechado, apenas um empregado com jeito de viado com as chaves dos quartos na mão, para escolher.
Fui para um quarto no primeiro andar, com Leila, depois de subir por uma escada estreita e escura, pois só havia uma lâmpada no fim do corredor.
Entramos no quarto, ela acendeu um pequeno abajur, em cima de uma cômoda, com alguns vidros de perfume, um talco Palmolive e uma bacia média, onde ela colocou um pouco d’agua que tirou de uma quartinha colocada no chão ao lado da cômoda, pegou uma garrafa de álcool e derramou um pouco na bacia;era para lavar as partes quando terminasse.
-Pode tirar a roupa, foram suas primeiras palavras.
Um pouco acanhado, mas meio embrigado, fui rapidamente tirando a roupa e automáticamente ficando excitado, ao vê-la arrancar o vestido pela cabeça.
-Pode deitar na cama, gosto de ir por cima, continuava Leila conduzindo todo o processo.
-Que coisa grande menino, ela me encabulava e ao mesmo tempo me deixava mais excitado.
Sem nenhum tipo de carícia ou beijo, ela deitou por cima de mim e começou a cavalgar. Em alguns minutos ela já bem excitada começou a gritar:- Chico meu amor, meu macho, eu te quero...me fode....
Em seguida teve um orgasmo estridente e vigoroso que me levou junto, completamente suado e atônito, mas ao mesmo tempo muito gostoso.
Parou. Deitou do lado ofegante, acendeu um cigarro.
-Você é muito gostoso! Disse me agradando
-Eu não lhe disse meu nome, como é que você adivinhou?Perguntei.
-E como é seu nome? Ela respondeu perguntando.
-Chico.
-Chico é o nome do meu namorado e toda vez que eu transo , penso nele pra poder gozar. Ele é soldado do 16 RI, olha a foto .
-Ah bom! falei, olhando aquela foto ridícula do recruta de cabeça raspada.

                Frei Carmelo
                  Ago/2005

segunda-feira, agosto 01, 2005

O PRECONCEITO

Detesto o esperar
adoro o esperado.
Não suporto o julgar
gosto do julgado.
Rejeito o odiar
sinto pena do odiado.
Odeio o rejeitar
suporto o rejeitado.
Sou louco pra amar
morro pra ser amado.
Chl
Ago/1986

sábado, julho 30, 2005

ELE E A SAÚDE


Na tenra idade
ele e a saúde
estão juntos.
Continuam
na adolescência,
começam a brigar,
na juventude.
A saúde
começa a correr
atrás dele.
Ele
corre pra longe
da saúde.
Na meia idade
ele
resolve fazer as pazes
com a saúde,
que já não quer mais.
Na velhice
ele
corre desesperado
atrás da saúde,
ela
esnobando
corre dele
até o fim.
Chl
Jul/2005

quinta-feira, julho 28, 2005

O LUAR

A lua surgiu imensa
Cor de fogo
Longínqua, arredia
Temerosa e bela.
O amor apareceu
Ardente e forte
Queimando como fogo
Corajoso e belo.
A beleza do luar
O calor do amor
O medo
De tudo acabar.

Chl.
Out/1985

terça-feira, julho 26, 2005

A PLANTA

Precisa iniciativa
para plantar uma árvore.
Precisa esperança
para vê-la crescer.
Precisa perseverança
para esperar os frutos.
Precisa paciência
para colher.
Chl

Abr/2005

sábado, julho 23, 2005

AMANHÃ

Foto de Hugo Macedo

Como seria amanhã
se eu não estivesse aqui ?
sem meu "cavalo de pano" (rêde)
meu "escritório ambulante" (telefone)
o filme de guerra
e a cuca fundida,
a briguinha careta
a "cosquinha" legal
autocrítica, análise
e a conversa fiada.
A vontade de ver
firmeza no passo
a vontade de ser
um pouquinho feliz.
O mundo da dor
o desejo de amor
a vontade de amar.
Uma fossa danada
a cara amarrada
uma vida inteira
um caminho difícil,
pela frente a seguir.
Chl
Mai/1979

quarta-feira, julho 20, 2005

O BECO DA LAMA

Léo já chegou namorando
E Hugo fotografando
O Dunga sempre pintando,
A SAMBA em reunião,
Pra resolver a questão
Que virou um rebu danado
A história do pé quebrado
Com oito pés a quadrão

Roselis trouxe uma flor
Dizendo que era pra Clô,
Jornalista de valor,
Pra acabar a confusão.
E de todo coração,
Pediu pra deixar de lado
A história do pé quebrado
Nos oito pés de quadrão

José chegou todo prosa
E Meire querendo a glosa
De uma rima famosa
Que teve repercussão,
Segurando em sua mão,
José estava indignado
Com a história do pé quebrado
Dos oito pés de quadrão

Antoniel entregou a Tadeu
Um papel que ele leu,
De uma rima que escreveu,
Com singela perfeição,
Mas disse de antemão,
-Estou ficando arretado
Com a história do pé quebrado
Em meus oito pés a quadrão

O Barba chegou de "finim"
Se encostou lá num "cantim"
Só pensando no "chinim",
Quis entrar na discussão
E disse: Já tô com tesão,
-Isso me deixa tarado,
Essa história de pé quebrado
E os oito pés a quadrão

Mário chegou de repente
Ainda meio descontente
Por causa do deliquente
Que roubou seu violão,
Mostrando indignação
Disse: Tô eletrocutado
Com a história do pé quebrado
Nos oito pés a quadrão

Pe. Augustinho muito calmo
Com um livro na mão a palmo
Descreveu um lindo Salmo,
E recitou uma oração.
Com o livro ainda na mão,
Disse: Eu não fico calado,
Com a história do pé quebrado
Nos oito pés a quadrão

Ainda ressabiado,
Ele olhou pra todo lado,
E neste lugar sagrado
Abriu o seu coração.
E dando a sua benção,
Ele deu por encerrado
O assunto do pé quebrado
E acabou a confusão.

Chl

Jul/2005

segunda-feira, julho 18, 2005

O CORUJÃO

                                                         Ilustração: Laércio Eugênio

Era uma festa de carnaval de 1975. Nos salões do América Futebol Clube o uísque corria solto na mesa do bloco. No bolso um vidro de Reativan, na bolsa um tubo de lança Universitário (Argentina) e um lenço ou um tufo de algodão, para ingerir pelos lábios ao invés de cheirar.
Lá pelas três horas da madrugada, Chico já muito embriagado resolveu ir embora, estava exausto e completamente desorientado. Antes de sair para pegar seu Jeep sem capota, resolveu passar no banheiro, e no corredor do clube encontra a jornalista. –Aonde vai uma hora dessas? Ela perguntou.
-Mijar e depois vou pra casa, que estou morto.
- Dá uma carona? Também quero ir pra casa.
-Tudo bem, ele respondeu.
Saíram do América, entraram no Jeep e ela foi logo insinuando:-Por que não vamos na estrada de Ponta Negra comer um sanduíche ou talvez tomar um caldo?
Seguiram para a estrada de Ponta Negra e no início da via que hoje se chama Avenida Roberto Freire, tinha uma placa luminosa, que Chico tão bêbado nem prestou atenção o que era e achou que poderia ser a lanchonete . Era “O corujão” o segundo motel de Natal depois do Jóia na Ribeira.
Chico meio intrigado, mas completamente bêbado resolveu entrar. Nem caldo , nem sanduíche, nada. Só teve tempo de arrancar a fantasia e cair na cama como uma pedra e adormecer.
Algumas horas mais tarde, por volta das 10 horas da manhã, Chico acorda, com uma tremenda dor de cabeça e sem saber onde estava. Lembrou-se de um amigo, Mimoso, que era gordinho e muito branco, para telefonar e saber que lugar era aquele. Olhou para o teto tinha uma lâmpada vermelha muito fraquinha que deixava tudo na penumbra, olhou para o chão e viu um carpete surrado e cheio de marcas, de queimaduras de cigarros jogados ; ficou intrigado tentando adivinhar se ali era o inferno ou um cabaré, quando do seu lado alguém se moveu.Olhou repentinamente para o lado e viu aquele corpo branco e roliço, imediatamente imaginou :- Será que eu comi Mimoso?
Virou-se completamente pra conferir e viu que era a jornalista que foi logo dizendo:- Oi amor, bom dia!
-O que estamos fazendo aqui, perguntou Chico, emputecido.
-Até agora nada, ela respondeu.
Ele retrucou: -Graças a Deus !
Ligou pra recepção pediu um copo de leite gelado, dois Engovs e ainda ouviu da moça da recepção que o conhecia : - Você hein! Comeu a gordinha.
Ele desligou o telefone e disse: -É foda mesmo, vamos embora.

                Frei Carmelo
                  Jul/2005
                  

sábado, julho 16, 2005

O NÁUFRAGO


Como um tronco inerte,
desce pelas águas
do rio caudaloso
batendo nas margens,
procurando galhos e arbustos
para se segurar,
procurando chão e terra
para se firmar.
Aos trancos e barrancos
vai o tronco
pelas águas turvas,
batendo nas margens
procurando uma praia
para se fixar
querendo a relva
para se fincar.
A vida,
este rio de águas serenas,
de margens de desespero
de galhos de ilusões
e arbustos de mentiras,
está na relva do prazer.
A busca
do se encontrar
a ânsia de se firmar
a vontade de algo ser
para poder se afirmar.
Pelo rio caudaloso
da vida
vão as águas serenas
da busca
batendo nas margens
do se encontrar,
levam com a esperança
de encalhar,
o náufrago.
Chl
Jun/1979

quarta-feira, julho 13, 2005

O VAQUEIRO

Foto: Hugo Macedo

A NOITE ESCURA
O CAVALO CARDÃO
AS COSTAS ENVERGADAS
E O VELHO TUBARÃO.

O SOL JÁ ESTAVA RAIANDO
O DIA AINDA NÃO NASCEU
MANÉ PRETO TIRA O LEITE
DO GADO QUE NÃO É SEU
BOTA MILHO PRO CARDÃO
O LEITE PRA TUBARÃO
O SOL JÁ APARECEU

TOMA UM CAFÉ BEM LIGEIRO
LÁ NA BEIRA DO FOGÃO
COM BULE REQUENTANDO
ASSENTADO NO TIÇÃO
ELE AJEITA A ESPORA
POIS JÁ É CHEGADA A HORA
DE IR PEGAR O BARBATÃO

DESPEDIU-SE DE MARIA
DEU UM CHEIRO NA DANADA
OLHOU COM OLHOS MIÚDOS
OITO REDES PENDURADAS
“INTÉ” SEUS PAPA-FARINHA
CUIDA BEM DA TUA MÃEZINHA
QUE VOU SAIR NA EMPREITADA

METEU O PÉ NO CAMINHO
NAS VEREDAS E NA ESTRADA
COM O VELHO TUBARÃO
FAREJANDO UMA CAÇADA
CUMPRIR ORDEM DO PATRÃO
FAZER A OBRIGAÇÃO
A SORTE ESTAVA LANÇADA

O SOL JÁ ESTAVA BEM ALTO
PAROU PARA DESCANÇAR
DEBAIXO DE UM JUAZEIRO
FICOU COMENDO JUÁ
TUBARÃO ESTAVA DEITADO
E O CARDÃO BEM AO SEU LADO
FEZ AS ORELHAS MURCHAR

MANÉ LEVANTOU DE UM PULO
CHEGOU PERTO DO CARDÃO
QUE OLHAVA PARA O MATO
COM MUITA INQUIETAÇÃO
TUBARÃO QUASE DORMINDO
LEVANTOU FICOU OUVINDO
O MUGIDO DO BARBATÃO

ERA POUCO MAIS DE MEIO DIA
O SOL COMEÇAVA A DESCER
O TOURO ANDAVA LIGEIRO
COM VONTADE DE BEBER
DEBAIXO DO JUAZEIRO
ONDE MANÉ CHEGOU PRIMEIRO
FEZ LISTA NO MASSAPÊ

ERA UM BICHO TODO PRETO
QUE TINHA A CARA MANCHADA
SUBIU PARA A RIBANCEIRA
EM TREMENDA DISPARADA
MANÉ MONTOU DE REPENTE
CORTANDO CAMINHO NA VERTENTE
COMEÇOU SUA CAÇADA

O CARDÃO DE ORELHA MURCHA
ENTROU NO MATO FECHADO
O LATIDO DE TUBARÃO
DE LONGE ERA ESCUTADO
E MANÉ SEM GARANTIA
A CARA NO MATO METIA
POIS ERA PAU BEM MANDADO

O TOURO MUITO LIGEIRO
COM O CARDÃO NO MOCOTÓ
VIRAVA TRONCO DE PEREIRO
EM MOFUMBO DAVA NÓ
TUBARÃO COM A LÍNGUA DE FORA
NO CARDÃO O SANGUE DA ESPORA
ERA ENSOPADO DE SUOR

MANÉ PEGOU O RABO DO TOURO
QUE DEPRESSA SE VIROU
COM OS CHIFRES BEM AFIADOS
PRO VAQUEIRO ELE OLHOU
MANÉ PULOU DO CARDÃO
AJUDADO POR TUBARÃO
QUE NA VENTA ABOCANHOU

ROLARAM POR CIMA DAS PEDRAS
NA BEIRA DE UMA TRINCHEIRA
O CARDÃO JÁ DESCANÇANDO
DEBAIXO DE UM CATINGUEIRA
VIU O ESCORREGO MALDITO
DE MANÉ OUVIU O GRITO
DESPENCANDO NA PEDREIRA

FEZ-SE UM SILÊNCIO PROFUNDO
TUBARÃO DEPENDURADO
OLHOU PARA A RIBANCEIRA
E VIU MANÉ AGARRADO
COM OS BRAÇOS NO PESCOÇO
O SANGUE JORRAVA GROSSO
MAS O TOURO TAVA PEGADO

MANÉ SOLTOU-SE DO TOURO
E JÁ DEIXOU MASCARADO
BOTOU-LHE UM CHOCALHO BOM
E O PEOU BEM PEADO
COM A MÃO NO CORAÇÃO
MONTOU NO SEU CARDÃO
E TANGEU O DESGRAÇADO

A CASA SE APROXIMAVA
SENTIU LOGO TUBARÃO
NÃO LATIA, SÓ ROSNAVA
O VELHO AMIGO, CÃO
SUA ALMA ESTAVA SENTIDA
ERA UM DESESPERO DE VIDA
QUE TINHA NO CORAÇÃO

O CARDÃO ANDAVA A TROTE
CARREGANDO SEU AMIGO
LIGEIRO SEM MACHUCAR
PROCURANDO UM ABRIGO
POR DENTRO TAMBÉM CHORAVA
E O SANGUE SE MISTURAVA
NO “VAZIE” E NO UMBIGO

MANÉ ABRIU O CURRAL
PRA ENTRAR O BARBATÃO
OS MENINOS NO TERREIRO
ESPERAVAM O CAMPEÃO
E O TOURO AMEDRONTADO
JÁ TODO AMOFINADO
NÃO ERA MAIS VALENTÃO

MANÉ FERIDO NA SELA
AINDA OLHOU PRA MARIA
QUE COM OITO FILHOS EM CASA
SEM NENHUMA GARANTIA
POIS SUA ÚNICA HERANÇA
ERA A GRANDE ESPERANÇA
DE SEREM VAQUEIROS UM DIA

MARIA DEU LOGO UM GRITO
QUANDO VIU CAIR O MARIDO
TUBARÃO LAMBEU SEU SANGUE
E DEU UM LONGO GEMIDO
A ALMA DE MANÉ, TÃO PURA
PARTIU NUMA NOITE ESCURA
CERTA DO DEVER CUMPRIDO.

Chl.
Out/1979

domingo, julho 10, 2005

PALAVRAS


As palavras
ferem a alma
doem na carne
como se um estilete
penetrasse nela,
sufocam o peito
matando o amor
nele contido.
O ser humano
se perturba e sofre
se machuca e dói
simplesmente porque é fraco
ou talvez,
porque é bom.
No âmago da dor
explodem as lágrimas
que se derramam pelas pálpebras
dentro das paredes frias
de um quarto sombrio,
a solidão e a dor
comungam com o sofrimento,
a impotência
e o se perder.
Chl
Fev/1979

sexta-feira, julho 08, 2005

O ADEUS

Tela de Léo Sodré


O último gesto foi de carinho
a última palavra, de tristeza
o último aceno, de saudade.
A cena foi de prazer,
o sentimento de amor
a realidade, de adeus.
Chl.
Dez/1985





quinta-feira, julho 07, 2005

PONTA NEGRA

As mãos tocavam o fecho
da calça "Lee"
os dedos abriam o "zíper",
as mãos já nos quadris
desciam a calça levemente.
O corpo bamboleando
ajudava a calça a descer
roçando macio,
aos poucos
apareciam as coxas
carnudas, rosadas
contrastando
com o preto cintilante
no regaço.
A calça já fora do corpo
é atirada ao chão
a moça senta-se suavemente,
abre as pernas
deita-se enfim;
a água do mar
no vaivém das ondas
molha seus pés
e o sol de Ponta Negra
bronzeia seu corpo.

Chl

Set/1979

segunda-feira, julho 04, 2005

O SONHO

Tela de Dunga.

Por volta das onze horas da manhã, recebi um telefonema, era Leila.
-Alô, oi Leilinha tudo bem?
-Estou apavorada, respondeu ela, aos prantos.
Ontem fui até a Fenacam, tomei cerveja com camarão, de todas as formas e receitas até a meia-noite;voltei pra casa meio bêbada.
Tomei um banho morno pra relaxar e dormir, mas estava cheia de vontade e de desejos. Perfumei todo meu corpo e fui pra cama completamente nua, pra suportar o calor infernal enquanto o ar condicionado restaurava uma temperatura amena e suportável em meu quarto.
Vi o telefone ao lado no criado mudo, resolvi ligar.
-Pra quem vou ligar uma hora dessas. Estou cheia de tesão. Há! Barbinha.
Liguei pro Barba que atendeu com uma voz sonolenta, desejosa e sensual : Oi querida, estava pensando em você, agorinha mesmo.
Pois é, tomei umas cervejas, tô muito afim, sozinha querendo a companhia de alguém que me faça relaxar.
-Só um minuto, falou Barbinha, deixe eu colocar o audi-fone, pra ficar com as duas mãos livres e podermos conversar melhor.
Aquela voz grave,sussurrante, lânguida, estava me umedecendo , me deixando arrepiada, me excitando.
-Como você está vestida, ele perguntou; antes que eu pudesse responder ele falou com uma voz de safado: - Estou com as mãos livres apenas me acariciando, completamente nu entre os lençóis.
-Ai, Barba, você é demais, também estou assim, mas tenho apenas uma mão livre , pois não tenho um audi-fone.
-Onde está sua mão agora?
-Lá, respondi.
Fizemos amor lindo e gostoso. Senti tanto prazer que adormeci, sem sequer desligar o telefone.
Acordei agora, completamente apavorada, com um sonho terrível que tive.
Sonhei que era uma menina indiana, e fui submetida a uma cisão clitoriana. Que loucura! Eu não sentia a dor física da cirurgia sem anestesia; eu sentia uma dor profunda no peito só de imaginar que pro resto da vida eu não seria verdadeiramente mulher, eu não sentiria prazer. A angústia que me invadiu foi tão forte que acordei soluçando, sentindo um imenso vazio dentro de mim.
Desculpa te ligar assim, Chico,mas precisava do amparo de uma palavra amiga e lembrei de você.
Depois de uma noite tão linda, tão prazerosa. O gozo profundo consumiu toda a minha força física e o sonho ruim tomou conta de mim, como se nunca mais eu fosse sentir aquilo de novo.
-Não esquenta Leilinha. Toma um banho frio, um copo de leite gelado, tenta se concentrar , liga pro Barba novamente e começa tudo de novo. Garanto que ele vai estar prontinho, te esperando.

                Frei Carmelo
                  Jul/2005

domingo, julho 03, 2005

REFLEXÃO

Quantas vezes
eu me lastimo
eu me combato
eu me debato
eu
contra essa formação
esse palavreado
contra o meu próprio
eu
Aí vem o preconceito
a esperança nata
a natureza bela
e o fim de noite
é o amanhecer
a vida continua
assim
como haveria de ser.
Chl

Jan/1979

sábado, julho 02, 2005

ADÁGIO DE RUA



O mendigo na praça
Cantando sem graça
Vendo o que passa
Sem nada esperar
É a ordem do dia
É a cortesia
Até mesmo anistia
Se faz escutar
Já se pode falar
Já se pode pensar
E eu queria dizer
Que o cobre é difícil
De se angariar!
E eu que vim pra pedir
Vou-me já embora
Vou correr, pegar o ônibus
Antes que o ônibus corra,
Pra me pegar.
Chl
Set/1979


sexta-feira, julho 01, 2005

A ESTRADA

Tela de Léo Sodré


A estrada é poesia
a paisagem é poesia
o pôr do sol é poesia,
e o colorido dos seus raios
refletem a sombra
de uma mulher,
A sombra é poesia
A mulher é amor.

Chl.

Jul/2005

quinta-feira, junho 30, 2005

NOVINHO


Para Novinho

Hoje fui à missa
de um ano
da perda
de um amigo
de um irmão.
Não mais chorei
de dor
mais ainda chorei
de saudade.

Chagas
29/06/2005

quarta-feira, junho 29, 2005

SENTIMENTOS


SENTIMENTOS I
A angústia
A melancolia
ajuda
a libertar
o que há dentro de si
A inspiração
A vontade de amar.............

SENTIMENTOS II
Agora
nada mais
me complica,
a não ser,
os meus próprios
Sentimentos.

SENTIMENTOS III
É necessário
que a minha afronta
te faça débil,
para que
te entregues a mim
como mulher.

Chl.
Mai/1978

terça-feira, junho 28, 2005

JANGO EM SANTA CRUZ




1963. João Goulart (Jango) era o presidente do Brasil. Aluísio Alves era o governador do Rio Grande do Norte e José Ferreira Sobrinho, meu tio, irmão do meu pai, era o prefeito de Santa Cruz.
O Major Theodorico Bezerra, Deputado Federal, era o líder político da região do Trairi e havia conseguido junto ao Presidente Juscelino , seu companheiro do PSD, o asfaltamento da estrada que liga Natal a Santa Cruz, concluída no governo de João Goulart. O Governador Aluísio Alves, por sua vez, estava trazendo para o Rio Grande do Norte, a energia de Paulo Afonso e a primeira cidade a ser implantada, era Santa Cruz, no Trairi.
Com as obras concluídas, marcou-se a inauguração. Palanque armado na praça, todos os preparativos prontos, aguardando o Governador que viria com todo o seu secretariado, além dos deputados estaduais e federais , e a comitiva do Presidente da República.
A cidade inteira se agitava, aguardando a visita de personagens ilustres do Estado e do País; a estrada asfaltada, traria para Santa Cruz uma quantidade de automóveis, ônibus, mixtos e caminhões, nunca vista antes na região. Todos os municípios próximos e até de regiões mais distantes mandaram seus representantes para receber o Presidente da república.
Início da noite, a praça apinhada de gente esperando ouvir o discurso das autoridades. O Governador Aluísio Alves, grande orador, fez um empolgante discurso, resgatando uma promessa de campanha: Trazer a energia de Paulo Afonso para o Rio Grande do Norte. O Presidente ressaltou o apoio dado através da CHESF, para a concretização do sonho dos Norte-Riograndenses, e do Ministério dos Transportes na melhoria da rodovia ligando a região a capital do estado.
Terminada a festa de inauguração todas as autoridades presentes se dirigiram para o Trairi Club, para o coquetel de comemoração.
O clube estava lotado, lá fora o povo cercava a entrada principal, querendo ver o Presidente. O exército guarnecia toda a entrada e as laterais, com o auxílio da segurança da presidência.
Quando terminou o coquetel, Jango aproximou-se da porta de saída, ladeado de autoridades e seguranças. Caminhando na frente, firmemente, deixava notar o defeito da perna direita, cujo joelho não dobrava, vítima que fora de uma doença da adolescência.
Quando pôs os pés na calçada, eu, muito pequeno, corri em sua direção. Um soldado do exército tentou me alcançar, colocando a mão sobre meu ombro e segurando pela camisa, quando ouviu a voz do Presidente:- Deixa!
Eu me aproximei, meio atônito, estirei a mão de menino para cumprimentá-lo, ele apertou minha mão e falou com a voz grave:- Como vai guri.
Continuou seus passos firmes, e eu fiquei imaginando: - O que será guri?, feliz da vida,por ter apertado a mão do Presidente.

Chagas Lourenço

segunda-feira, junho 27, 2005

BEIJA FLOR

Aquarela Ana Melo


Na manhã,
o beija-flor,
suga o néctar
pra viver.

O orvalho,
escorre,
como uma lágrima
pela vida.
Chl

Jun/2005

domingo, junho 26, 2005

FLÔR DOS ANDES


Nas margens do Lago de Todos os Santos
as flores andinas
vicejam
com a brisa amena de verão
entre as montanhas.
As flores são lindas
inofensivas
não pensam
não falam
não agridem
dão apenas,
toda sua beleza.
Os homens
colhem as flores
colocam no vaso
e as escravizam
tentando fazê-las eternas.
As flores secam
e morrem,
provando que,
ninguém é de ninguém
nem mesmo as flores.
Chl.
(Peulla - Chile -Fev/1979)

sexta-feira, junho 24, 2005

POETA OU POETISA


É poeta ou poetisa
Esta é a discussão
Enquanto se sente a brisa
E procura inspiração
As vezes ela demora
E a rima fica incompleta
Nem mesmo Nossa Senhora
Ajuda quem não é poeta
Marcia Maia é poetisa
Agora, só pensa na neta
Pelo que escreve e improvisa
É poetisa e poeta.
Chl.
Jun/2005

PONTO


Um ponto negro
no espaço branco
-projeta -
meu ego
no vazio.
Chl.
Mai/1978

quinta-feira, junho 23, 2005

GLOSA


Se verso desse dinheiro
eu só vivia versando

Eu canto por derradeiro
a minha poesia contente
e enricava de repente
se verso desse dinheiro!
Cabra véio canguleiro,
vivia verso inventando,
passava o dia cantando
sem sequer ficar cansado
era rico aposentado
- eu só vivia versando!
Chl.

Jun/2005

quarta-feira, junho 22, 2005

ESPERANÇA



Dê esperanças
à Lua
quando, novamente
ela brilhar,
estarei aqui
para apreciá-la.
Dê esperanças
ao Sol
quando,ressurgir
vou dourar
e vou sentí-lo.
Dê esperanças
ao Amor
quando, ele vier
estarei aqui
-sempre-
a esperá-lo.
Chl.

Jun/2005

terça-feira, junho 21, 2005

TARDES DE SÁBADO NO VIETNAM

Ilustração : Geraldo Cunha


Minha querida Márcia,

Só você pra me arrebatar de volta para o edifício ilhado da rua dos Palmares, guarita do populoso Santo Amaro, com águas regurgitadas pelo velho Capibaribe, vinda aos borbotões da Cruz Cabugá.
Só você pra me levar de volta ao 1403 do Edifício Suape, na barulhenta esquina da rua do Hospício com a Av. Conde da Boa Vista (lembra Marcolino?)
Só você pra me jogar dentro de um ônibus lotado na Avenida Caxangá no caminho da Faculdade de Economia da UFPE.
Só você pra me transportar nas tardes de sábado para o Bar da Tripa, tomar cachaça com caldo de Sururu, cantar canções e fazer versos de protestos, contra a guerra do sudeste asiático, no Vietnã, e chorar de revolta contra a repressão da ditadura brasileira, que ceifava todos os dias a vida de companheiros da infância.
Só você para me lembrar os amigos da Madalena e do Derby, chamando para ver o primeiro programa a côres da TV Tupi, com Flávio Cavalcanti, vestindo uma camisa vermelha berrante, para chamar a atenção.
Só você para me levar de volta à travessia da comprida Av. Recife, cruzar o Tejipió, a Imbiribeira a barão de Souza Leão e finalmente chegar a rua Nossa Senhora dos Navegantes imediações do Posto Esso, onde conspirei, escrevi, amei e vivi parte da minha vida.
Só você pra me levar agora para a estante e folhear a Geografia da Fome de Josué de Castro e olhar tristonho para Homens e Caranguejos, do mesmo Josué, falando de humanos sobrevivendo nos mangues do Beberibe e do Capibaribe, que por ironia se encontram depois e juntos abraçam o mar, sob os olhos do Palácio das Princesas, na pujança e beleza da Veneza Brasileira.

Um grande beijo, Marcinha, marejados pelas lembranças e pela saudade.




Tardes de sábado no Vietnam


para Chagas, com saudade e carinho


Ao meio-dia, eles saíam. Em bando. Dos quatro pontos cardeais. Vestiam quase sempre, calças jeans: lee ou lewis. Quase nunca, camiseta. Sandálias de couro em vez de tênis.
Cabelos compridos ao vento. Violão na mão.
Elas se vestiam quase igual. Calças jeans, boca de sino. Raramente mini-saia. Blusas curtinhas, de malha, às vezes, bordadas, deixando entrever umbigo e o cós da calça. Quando havia cós na calça. Cinto de couro, sandálias e bolsas, também. De artesanato. Nenhuma maquiagem.
Cabelos compridos ao vento. Violão na mão.
Encontravam-se perto de uma hora, no bar junto ao cemitério. Terraço de madeira, mesas trôpegas, mínimo. Ali, muitas revoluções salvaram o mundo. Amores nasceram. Amores morreram. Todas as canções foram compostas. Todas as canções foram cantadas. E os sonhos brotaram, meio aos copos de cachaça e de cerveja, como brota o capim depois da chuva.
Enquanto na Ásia, a guerra se fazia, e aqui, a ditadura estendia até eles, suas garras, e os prendia e os matava, ali, no bar junto do cemitério, à beira da estrada, eles eram felizes e livres nos sábados à tarde. Num pequeno paraíso chamado Bar da Tripa, vulgo Vietnam.



Márcia Maia



A CAMA


Os corpos se agitam
os dedos se tocam
as carnes se unem
os sexos se mordem.
Em cima da cama
os corpos param
o peito se enche de ar
inflando o êxtase
o êxtase, o êxtase....
Os olhos se abrem
no relaxamento
o corpo fica pesado
os braços se afundam
no colchão
A cabeça
desce macia
roçando os cabelos
a pele suada
gruda as faces
A testa encosta
suavemente
no travesseiro.
Um suspirar profundo
desinfla o peito
o coração bate agitado
e a boca entreaberta
beija os lençóis.
Chl.
Jan/1979

domingo, junho 19, 2005

LIBERDADE CONDICIONADA


Quando me enrosco em teus braços
debaixo dos teus "cheiros"
fico completamente indefeso,
como um lírio brejeiro
como a areia da praia
que o vento sopra nas dunas
como a espuma das ondas
das águas do mar,
como um peixe na rêde
sem poder se livrar.
A relva do campo
na terra fincada
a liberdade dos homens
condicionada
são as meias verdades
que alguém, um dia falou
é a rotina da peça
que a censura cortou.
É o grito encravado
em cada garganta
é a voz desse povo
que não se levanta,
mas é tudo que quero
e que sempre quiz
apesar disso tudo
eu sou muito feliz.
Chl.
Mai/1979

sábado, junho 18, 2005

SOLUÇOS


Tuas lágrimas
se derramam
no meu peito,
pelas alcovas
vagueia o meu pensar.
O medo de te ofender
me chateia,
me apavora
o medo de te deixar.
Afundo o rosto no travesseiro
querendo dormir sem acordar,
um sonho alvissareiro
diz que sou feliz
só no sonhar.
Teus braços
envolvem o meu corpo
me balançam os soluços
do teu chorar,
na liberdade
os anseios de minha vida
tenho certeza
um dia ela virá.
Adormeço
nos sonhos da ilusão
tenho medo
até mesmo de falar
e se acordo
com teus soluços em meu peito
fico sabendo
que eu também devo chorar.
Chl.
Set/1978

quarta-feira, junho 15, 2005

VENTANIA


O vento forte da primavera
sacode a areia da praia,
agita a cerveja no copo
balança a barraca do Zé.
O vento do amor maior
sacode a alegria do peito,
agita o sangue nas veias
balança meu ser por inteiro.
Chl.
Set/1979

terça-feira, junho 14, 2005

VISÃO


Do alto do morro
por entre as dunas
e o arvoredo
as luzes da cidade.
Você já viu Natal,
lá de cima do morro?
Pois devia ver
cada luz
é um olhar
cada olhar
é um lar
cada lar
em seu lugar
definindo,
a visão do alto
sobre a cidade.
Chl.
Set/1978

segunda-feira, junho 13, 2005

POEMA DOCE


Barulho na rua
uma mesa redonda
uma réstia de luz
a caneta e o papel.
O amor lá na rede
os lençóis lá na cama
a água gelada
e a cocada de "côco"
é claro !
o meu doce poema.
Chl.
Jul/1979