quarta-feira, janeiro 20, 2016

CARTAS DE BERTENIO II

Chaguinhas,

Hoje a notícia não é muito boa, mas mexeu muito com a população de Santa Cruz e deixou muita gente consternada.
Houve um lamentável assassinato, resultante de uma briga de dois agricultores aqui do município.

João do Inharé voltava da feira junto com Bondade, passaram na casa de Chico Bento, no final da rua que você morava, a Ferreira Chaves, para uma prosa com o pessoal que também vinha da feira , tomaram umas bicadas de cana e seguiram viagem.

Passaram pela casa do finado Antônio Henrique de Medeiros (Antônio Calixta) e Dona Maroca, no Alto, onde mora Clodoval, falaram com Luzia que tava na calçada e acenaram para Biluca, que tava sentada num canto do corredor, arrancando os cabelos, um por um e rindo ; passaram na frente da casa de Antônio Justino (Piçoca) e seguiram para a Malhada Grande, pararam na Braúna da Mijada, perto do cruzeiro, cheio de bonecos, pés e braços de madeira, das promessas do povo e subiram a ladeira da casa de Ascendino do DNOCS.

Quando passaram na casa de Ascendino, já existia uma discussão. Diz Carrapeta, vaqueiro de Clodoval, que eles começaram a discutir quando saíram da Braúna da Mijada. Pacote, que estava na beira do rio , pegando umas piabas, ouviu também os dois falando alto. Ascendino tava na calçada, acenou pra eles e só Bondade respondeu, João nem olhou pra ele.

Pois bem, seguiram na estrada do Imbú, atravessaram a estrada que vai pra Currais Novos e pegaram o rumo do Inharé. Sei desses detalhes, porque como Delegado Civi, colaborei com a polícia, a pedido do Tenente Bento de Medeiros, Delegado da cidade. Ainda perguntei à Maria Freire, do Imbu, se ela tinha visto alguma coisa, mas ela não sabia de nada.

Por volta das quatro horas da tarde, chegou um rapaz num cavalo na delegacia e comunicou ao delegado que seu Bondade estava morto na estrada do Inharé, com umas pauladas na cabeça. 

Depois dessas informações que foram colhidas das pessoas que tinham falado com os dois, o Tenente Bento, foi pessoalmente com dois soldados, prender João, na casa dele. João se entregou sem resistência e se mostrava arrependido, pois o efeito da cachaça estava passando. Chegou na delegacia já era boca da noite, mandou chamar meu irmão Severino Dobico, que era o carcereiro e trancafiou o criminoso.

No dia seguinte, o Tenente Bento de Medeiros, mandou João colocar o caixão com o corpo do finado Bondade na cabeça e levar sozinho até o cemitério. Saiu da cadeia, entrou pela rua do Riacho, passou do lado da casa que você nasceu, na esquina da Ferreira Chaves, do lado da casa de Joaquim Pintor, pai de Severino da Burra,onde tem um pé de Flamboyant, que tá florido, na casa de dona Titi, engomadeira, pela usina e subiu a ladeira da maternidade até o cemitério, onde colocou o caixão na cova, com a ajuda do coveiro, mas enterrou sozinho. 

Por hoje é só isso, não é uma boa notícia, mas você precisava saber.
Todos nós ainda estamos chocados.

Grande abraço do sempre amigo,

Bertênio.

segunda-feira, janeiro 18, 2016

CARTAS DE BERTENIO

Gostei tanto dos escritos do jornalista , meu amigo e conterrâneo Rosemilton Silva, com suas conversas com a cumade Maria Gorda, Michael, Gonzaga e outras figuras folclóricas de Santa Cruz, que resolvi escrever cartas fictícias como se fossem as cartas que recebia e escrevia para Berthênio.

Berthênio era como eu chamava meu querido amigo, José Piscínio de Oliveira ( Zé Dobico),de Santa Cruz, que trocava correspondências comigo, nos idos de 1965/66, quando eu era estudante no Rio de Janeiro.

Querido Chaguinhas,

Aqui está tudo bem, todos com saúde, graças a Deus, só a minha responsabilidade que aumenta, cada dia , mais.
Como você sabe, sou quase vizinho de Dr. Aldo Pessoa, Juiz da nossa cidade, que você conhece muito bem, até mais do que eu.
Pois veja você, Dr. Aldo, quando não está no carteado lá no clube, no jogo de Belízio, junto com Miguel Farias, Pitico, Antônio de Hosana, Zéluce, Josias Azevedo, Zé Aurélio, está em casa, aqui na praça e não aceita barulho de tamanho nenhum , no toca-fitas dos carros. Ontem esteve aqui na minha casa e deu uma ordem:
- Você , seu José Dobico, como Delegado Civil , tem o dever de coibir esse abuso, dos rapazes nos bares, com o som do carro muito alto.
Eu respondi na hora,-Pois não excelência, vou tomar minhas providências.

Chaguinha, hômi de deus, primeiro, procurei saber o que mulesta era "coibir", que eu soube que era "empatar" os meninos de fazer zoada, depois fiquei até de noite, na hora que eles encostam no Bar do Ponto, para tomar minhas providências.

Você sabe que eu só permitia você , naquele fusca branco, fazer uma zoadinha, pequena, aqui na frente, primeiro porque é filho do meu compadre Lourenço, que além de ser meu amigo, foi meu hóspede, quando era solteiro e depois porque você namorando com a filha do Juiz eu tenho mais moral pra dizer a ele, que é gente de casa, mas outros cabras, principalmente de fora, não vou permitir.

Pois num é que ontem de noite, eu já tava quase cochilando, quando chegou correndo, aqui em casa, Caldo de Batata, filho de Dr.Aldo, dizendo que tem uma Kombi, com placa de Cuité, com o som nas alturas, em frente ao Big Bar, o bar dos meninos de Barros Pretos de Lajes Pintadas.

Imediatamente mandei Neífe que estava conversando aqui na calçada para avisar ao dono do carro, para baixar o som. Neífe, voltou e disse que o cara não ia baixar. Na mesma hora pedi a Neífe para ir até à delegacia  falar com o Capitão Pereira, para enviar uma guarnição da PM.

Esperei uma meia hora e chegou Neífe com a guarnição na minha casa: O Sargento Pacheco, o Cabo Miguel e o soldado Andorinha. Eu imaginei na minha cabeça, "agora vai".
Na frente do pelotão me dirigi para o bar, passei na frente da casa do Juiz, ele estava sentado na sala, esperando o resultado. Lá em casa, Mariinha foi tomar uma garapa de rapadura, pra se acalmar e Do Céu, sua querida amiga, ficou olhando na janela, agarrada com um terço, rezando.

Quando cheguei lá, dei a ordem, -Baixe o som do carro ou faça o favor de se retirar, que está perturbando a ordem pública. O cabra perguntou:
- E quem é o senhor, com essa autoridade toda ?
-Sou, José Dobico, Delegado Civil da cidade e estou com uma guarnição da Polícia Militar. Aí, tomei um susto quando Pacheco gritou:- Sentido, apresentar armas, para Cabo Miguel e Andorinha, um com um revólver 32 e o outro com um cassetete.

Foi quando, para minha sorte, o cabra falou, - Ah! seu Zé Dobico do hotel, sou filho de Ascendino de Cuité, que conhece o senhor e se hospeda lá quando vem fazer negócio aqui. Vim deixar um dinheiro de agave e aproveitei pra tomar uma aqui no bar, mas já tou indo embora.
Aqui sim, tem moral, lá em Cuité é uma esculhambação, a zoada dos carros nas bodegas.
Foi-se.

Do Céu manda lembrança e está lhe esperando pra tomar o cafezinho que você gosta. Receba meu abraço e fique com Deus.

Seu sempre amigo,
Berthênio.


domingo, janeiro 17, 2016

A VIAGEM DE GERALDO COSTA.

José Ferreira de Medeiros, Zé Dadá, era farmacêutico e foi vice-prefeito de Santa Cruz, quando o prefeito era João Bianor Bezerra.
Casado com Tereza Medeiros, Zé Dadá era o pai de Carluce Medeiros, Celúzia , Joseluce, Feluce e Celuta e morava na Praça principal da cidade.
Feluce Medeiros, assumiu a farmácia de Zé Dadá e dirigiu por muitos anos.
Casado com Ana Maria Damasceno, filha do comerciante Zé Dadão, que era uma das moças mais bonitas de Santa Cruz.

Vizinho de Sebastião Rocha, Bastião da Farmácia, na Rua Grande, Feluce começou a sentir o peso da concorrência.
Bastião chegava cedinho na farmácia e só saía quando anoitecia, trabalhava muito, permanentemente com um charuto na boca, ora fumando, ora mastigando, ele consumia uns três ou quatro por dia.
Atencioso, muito trabalhador, profundo conhecedor do ramo que trabalhava, Bastião foi tomando conta da freguesia.

Um belo dia, Feluce resolveu se desfazer do negócio. Ana Maria tinha um comércio de confecções, bem movimentado na praça.
Ele tinha uma propriedade no Catolé e resolveu investir lá. Foi ao BNB, para fazer um financiamento para o sítio. Fez o projeto, levou toda a documentação necessária e pediu o empréstimo.

O banco, como é de praxe, colocou o projeto para análise e indicou um fiscal para visitar a propriedade, Cordeiro.
Cordeiro pessoa muito querida na cidade, foi à praça de carros de aluguel, para alugar um carro, e fazer a vistoria do sitio ; escolheu o jeep de Geraldo Costa. Acertaram tudo para no dia seguinte cedinho fazerem a viagem.
No outro dia, logo cedo, Geraldo tomou um café no Galego da praça, para colocar os assuntos em dia e foi para a casa de Cordeiro, que era vizinha ao banco.

Cordeiro já estrava pronto. Perguntou:
-Seu Geraldo, quer tomar um café? Não, obrigado, já tomei no café do Galego de Noêmia, respondeu Geraldo.
Galego era filho de Noêmia e Luiz Dadá, primo legítimo de Feluce.

Entraram no jeep e saíram. Cordeiro puxou logo assunto:
-O senhor conhece bem a região ?
Geraldo deu uma risada gostosa e disse :- Doutor Cordeiro, eu sou daqui, da família Costa, que tem terras no Araraú, Baixio do Roçado, Oiticica, Pedra Grande e Tanquinhos, até o Pau de Leite, divisa com Sitio Novo, tudo "anêxo" da região que nós vamos.
Geraldo viu que Cordeiro ficou boquiaberto com o conhecimento dele, aí apurou-se.
- Nós vamos pela Terra Firme, que é na entrada da Furna, mas entro pelo açude do Alívio, passamos na Glória, perto do Imbu, entramos no Feijão de Dr. Paulo Galvão, casado com dona Cleonice, filha do Desembargador Tomás Salustino , aí chegamos em São Joaquim, do Major Dedé, José Henrique Dantas de São José de Mipibú, mas quem toma conta de lá é dona Zuleide, filha dele e o gerente é Inácio Gouveia, o vaqueiro é Zé Malhada e quem faz as selas e os arreios lá, é Catoco.
Cordeiro ficou impressionado com tanto conhecimento.

Geraldo continuou falando da região:
- Depois de São Joaquim tem os Angicos de Mário Dantas, primo do Major Dedé e a Pedra Bonita , onde moram , Miguel Vicente e Severino Machado, mas antes, tem o Catolé, para onde nós vamos.
- Então vai ser fácil essa vistoria, disse Cordeiro, você conhece tudo. Você conhece bem a propriedade de seu Feluce ?
- Como a palma da mão, respondeu Geraldo.
- E é grande, insistiu o fiscal.
- É grande, doutor.

Depois de passar em todos esses lugares, finalmente chegaram no Catolé.
Passaram em frente a casa de Batista e entraram à direita em direção ao sítio, quando logo na frente apareceu a porteira. Cordeiro desceu, abriu a cancela e imaginou, "vou passar o resto do dia aqui, ele disse que o sitio era enorme".
Quando voltou para o jeep, Geraldo engatou a primeira, fez uma curva numa estradinha estreita, desceu uma ladeira e quando subiu em outra, apareceu outra porteira. Cordeiro já ia descer para abrir quando Geraldo, com um arzinho de riso, disse:- Pronto, terminou a terra.
- Ôxente, você não me disse que a terra era grande .
Aí Geraldo, em cima da bucha, confirmou:
- E é, pra baixo, vai bater no Japão.





terça-feira, outubro 20, 2015

GLOSA

     Mote

Quero ver um altar de flores
Aos pés de Santa Rita

Glosa

Para salvar o ambiente 
Vou começar a plantar
Pedir e incentivar
Numa luta diferente 
Com amor muito contente
Como se fosse uma dita
Minh'alma no peito grita
Transbordando de amores
Quero ver um altar de flores 
Aos pés de Santa Rita.

Chl.
Out/2015.

segunda-feira, setembro 28, 2015

GLOSA

A beleza do luar
Quando é visto da terra
Tem um encanto que encerra
Meu desejo de amar
E a vontade de abraçar.
Como vinho de boa uva
Uma bela mão sem luva
E meu coração se encantando
A lua partiu chorando
Deixando a noite viúva.

Chl
Set/2015

quarta-feira, julho 15, 2015

MINHA ESCOLHA

Em 1965, aos 15 anos, fui para o Rio de Janeiro, estudar. Seria interno no Colégio São José, Marista, na rua Conde do Bonfim, no Alto da Tijuca.
Concluí lá o segundo grau e fiz vestibular em São Paulo, onde passei na Faculdade de Engenharia Industrial- FEI, em São Bernardo do Campo.
Cursei Engenharia Mecânica, na especialização de Máquinas e Ferramentas. Fiz até o segundo ano e resolvi trancar a matrícula para tentar o curso de Economia, que era um assunto que muito me interessava na época. Deixei em aberto a possibilidade de voltar para concluir o curso de engenharia, se algo não desse certo ou se eu não gostasse do novo curso.

Vinha pra Natal, sempre nas férias. Em 1969, falei com papai para comprar a passagem de avião, só até Recife, que eu teria um negócio pra resolver lá e viria de carro para Natal. Ele estranhou, mas concordou e no dia combinado ele foi com Duda, que era motorista da usina, em um fusca, me pegar no Aeroporto dos Guararapes, no Recife.

Do aeroporto seguimos direto para a Faculdade de Administração de Pernambuco, no encontro da Avenida Conde da Boa Vista com a rua do Hospício, no centro do Recife.

Chegando lá , peguei uma ficha de inscrição para o vestibular de 1970. Sentei no batente da escadaria da faculdade, para preencher a ficha.Papai sentou do meu lado e perguntou:
- O que você veio fazer aqui ? Respondi, "vim inscrever um amigo, para fazer o vestibular de Economia". 
Comecei a preencher a ficha e novamente ele perguntou:
-Esse seu amigo tem o mesmo nome seu? Eu estava preenchendo a minha ficha, mas ele não sabia. Eu disse, -Em casa conversaremos, ele silenciou.

Foi a minha primeira escolha.

Chegamos em Natal e entramos na nossa casa, mas antes que eu pudesse falar com mamãe, ele me puxou pelo braço e nos trancamos no meu quarto.
- O que é que você está pretendendo ? Perguntou-me.
- Quero fazer o vestibular para Economia, respondi.
- Faça o que você achar melhor pra sua vida, me abraçou e saímos do quarto.
Meu pai foi a pessoa mais compreensiva e bondosa que eu conheci.

Fiz o vestibular em Janeiro de 1970 e entrei na Faculdade de Economia da Universidade Federal de Pernambuco, onde me formei, economista.
Fui morar no Recife, mas todos os fins de semana eu vinha pra Natal e aos domingos ia pra fazenda em Santa Cruz, onde comecei a tomar conhecimento das atribuições na vida rural.

No último ano da faculdade, 1973, eu estava procurando estágios na área de economia ou administração e acompanhava junto à Sudene um projeto de Agropecuária que tínhamos na Fazenda Santo Alberto, quando um grupo de colegas me convidaram para fazer um teste em uma empresa de consultoria multinacional, a Arthur Andersen. Recusei, inicialmente, dizendo que não queria um emprego fixo e duradouro no Recife, pois minha intenção era voltar pra Natal.

Houveram muitas ponderações e insistências dos colegas, alegando que seriam quatrocentos inscritos, das Universidade Federal e da PUC-Universidade Católica de Pernambuco, e que seria apenas uma verificação de capacidade, uma vez que era para preencher apenas uma vaga. Algo despertou em mim, talvez o espirito de competição em uma área que estava apenas iniciando, mas na realidade era o desejo de saber se eu tinha realmente alguma capacidade.

Fizemos a primeira prova escrita e ficou apenas a metade dos concorrentes e eu estava entre eles. Fiquei animado. A segunda prova era oral e eliminatória, feita por um executivo brasileiro da empresa. Eliminou outra metade, restaram apenas 100 alunos, mas eu fiquei entre os 100. Mais uma prova oral, desta vez, feita por um executivo mexicano, que atuava no Brasil. Bem mais complexa e extremamente técnica, mas sempre dentro de uma visão empresarial, já que a função da Arthur Andersen era de consultoria em empresas públicas ou privadas. Saíram 80 alunos, mas eu fiquei. Restaram vinte.

A terceira e última prova oral, foi proferida por executivo Inglês, de alto nível e que falava um português arrastado com muito sotaque. Resolveu examinar cinco alunos por dia, com entrevista de uma hora para cada candidato. Eu estava na dúvida porque eu realmente não queria ficar, mas resolvi encarar.
A primeira pergunta foi, "quanto você quer ganhar"? Respondi imediatamente, "dez salários mínimos". Soube depois que foi a pedida mais alta do grupo, pois os outros querendo o emprego, colocaram valores ao redor de cinco salários. Como eu não pretendia ficar, achei que pedindo alto seria excluído.

As perguntas continuaram, em bloco e pedindo para fazer uma exposição sobre qualquer assunto empresarial que eu pudesse ter conhecimento. O assunto que eu lidava naquele momento, era o projeto da Sudene, que tratava de instalações rurais, tipos de capim para pasto e raças de bovinos mais adequadas para criar na minha região, o zebu, nelore ou guzerá. Foi sobre o que falei durante o meu tempo de prova. Percebi que o Inglês, ficou meio boquiaberto.

Uma semana depois, recebi um comunicado pedindo que eu comparecesse no escritório da empresa de terno escuro e gravata, para assumir o emprego e que o salário que eu pedi, seria pago.Passei a noite sem dormir, tinha que tomar uma decisão.

Cheguei cedo ao escritório da empresa no dia seguinte, sem terno e sem gravata e me apresentei ao Inglês. Ele disse que iria mandar me mostrar a minha sala e a partir de agora, dependendo do meu desempenho eu poderia ir ao Rio de Janeiro, para um curso de aprimoramento, depois à Cidade do México e finalmente Los Angeles, o que significava que eu teria que ficar fluente em inglês.Quando ele parou de falar, eu disse:
- Vim aqui me desculpar e agradecer, mas, não vou ficar.
Ele estupefato, balbuciou -Io nom acredito.
Levantei-me, apertei sua mão e me retirei. Soube, depois, que o segundo lugar, que era um estudante da PUC, foi chamado e assumiu. Resolvi que voltaria pra casa e ajudar meu pai e minha família a administrar os bens da nossa família.

Foi a segunda grande escolha da minha vida.

Chl
Jul/2015










terça-feira, julho 14, 2015

PREVISÃO

Não sei se vi
ou verei
não sei se fui
ou irei
nem sei se disse
ou direi
agora eu quero
e sempre quis
escrevo com lápis
ou com o giz
tudo que ouço
ou que alguém me diz
amor terei
porque já tive
irei à lugares
que nunca estive
e viver bem
é como se vive.

Chl
Jul/2015

sábado, agosto 09, 2014

PARA SALES E DILANA


De longe, olho sorrateiro
Teu cabelo loiro esvoaçante
E eu, como paladino errante
Despeço-me dessa vida de solteiro
Fui o último e agora sou primeiro
Como lobo correndo na estepe
Brigo de foice, faca e canivete
Buscando na lapinha minha Diana
Ou eu fico desta vez só com dilana
ou acabo na pedra do Itep.

Chl
Ago/2014

domingo, maio 11, 2014

HOJE É SEU DIA.


Eu nem sempre estava com você
no dia das mães
eu morava fora
mas, estava no aniversário
depois
estava com você
no aniversário
e no dia das mães
estava ao seu lado
na sua casa
na sua cama
no hospital
hoje
estou com você
todos os dias
na alma
no coração
no pensamento
nos sonhos...
............
na eternidade.
Parabéns Mamãe!

Chl
Mai/2014

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

WHERE YOU FROM ?


Em Novembro de 2000, fizemos uma viagem para Miami, Barbosa,Tomba, Carneirinho e eu, com as esposas, e  Barbosa levou os dois filhos.
Saímos de Natal para o Rio de Janeiro e de lá pegaríamos o voo para Miami. Carneirinho precisou antes, passar no Recife para pegar o passaporte que estava no consulado americano para receber o visto.
Carneiro apreensivo falou:- Eu nunca fui no Rio de Janeiro e quando chegar lá naquele aeroporto grandão, como é que eu vou achar vocês ?
Eu disse, "Carneiro, pegue o melhor chocalho que você tiver de ovelha, quando descer do avião, bote no pescoço e faça carreira dentro do aeroporto que eu sou vaqueiro e você lhe reconhecer pelo chocalho". 
Por volta das oito horas da noite, Carneiro chegou, acionou o celular e nos encontrou rapidinho.
Embarcamos meia noite para Miami.
Barbosa tomou logo um "amansa leão" (Lexotan), pra dormir no voo, os outros dormiram todos, só eu, que não durmo em avião, nem ônibus, nem carro, só se tiver tomado muita cachaça, passei a noite lendo e dando uns cochilos rápidos.
Foi quando lembrei de Paulo Mendonça, pai de Barbosa, que me contando uma viagem que fez para Miami, com a família, disse que passou a noite acordado no avião ; resolveu andar no corredor pra ver se tinha alguém acordado como ele e me disse:
- Todo mundo estava dormindo, só tinha acordado no avião, eu e o aviador (piloto).
Chegamos em Miami, nos instalamos no hotel, para no dia seguinte, embarcar em um navio para um cruzeiro no Caribe e visitar Cancúm e Cozumel.
Quando fomos entrar no navio,ficamos na fila de embarque e de carimbo do passaporte, já que sairíamos dos EUA para o México.
Carneiro ficou em uma fila paralela a minha, mas, sempre do meu lado. Quando chegou nossa vez, olhei para Carneiro e na frente dele tinha uma moça bem gorda, tipo afro-descendente americana, carimbando os passaportes.
Ela olhou pra ele, pegou o passaporte e perguntou:
- Where you from ?(de onde você vem)
Carneirinho virou-se pra mim e falou:- Agora tourou dentro, mesmo na emenda.
Eu para tranquilizá-lo, disse,"diga de onde você vem".
Carneiro olhou pra negona e falou quase gritando:
- T..A..N..G..A..R..ÁÁÁ.....
A mulher arregalou os olhos, sem entender nada e eu olhei pra ela e esclareci: "Brasil".
Ele deu um sorriso, carimbou o passaporte e o Carneiro entrou no navio.

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

O IMPALA


Era dia de reunião da Cooperativa de Eletrificação do Trairi em Santa Cruz. Começou na parte da tarde no Trairi Clube.
Alzamir Pereira chegou de São Tomé, com Zé Diniz, para participar da reunião.
Alzamir com o pai Rainel Pereira e os irmãos, Alzair,Afrânio e Rainel, participavam da Cooperativa de São Tomé, uma das mais prósperas da região.
Passou em Campo Redondo onde tinha a fazenda Lagoa do Deserto, em cima da Serra do Doutor. Almoçou por lá, no bar de Zé Liberato, regado a doses de cachaça.
Era meu amigo e nos encontramos na reunião. De vez em quando Alzamir se levantava e saía do clube até o Impala americano, que ele possuía, estacionado em frente.
Perguntei: -Zé Diniz, que danado Alzamir vai ver naquele carro a toda hora ?
Zé Diniz me respondeu:- É uma garrafa de uísque que tem lá ele deve ter ido tomar um gole.
No final da reunião, por volta das seis horas da tarde, Alzamir me chama e diz:
-Eu queria ir com você pra Natal, contanto que a gente pare no Veneza em Tangará e no bar das moças em Bom Jesus, pra tomar uma e botar a conversa em dia.
- Tá topado, respondi, vamos na minha camionete.
-Não, disse ele, vamos no Impala, pra você dirigir um carro  hidramático, já guiou um?
-Eu não e acho que nem sei dirigir.
Entramos no carro ele,Zé Diniz e eu e saímos aos pulos até eu me acostumar com o carro sem embreagem.
Paramos em Tangará, Bom Jesus, bebemos e demos boas risadas.
Eu com um chapéu Panamá de couro que havia comprado nos Estados Unidos, parecia o pistoleiro de Alzamir e ele rindo muito dizia "Vamos motorista, vamos embora" e entrávamos no carro. Eu engatava a primeira puxando o cabo da marcha que era no volante e saíamos ligeiro sem mais pulos, pois eu já havia acostumado com o câmbio automático.
Quando estamos nos aproximando da rodoviária federal em Macaíba, um guarda vem para o asfalto e faz sinal para parar.
Eu disse pra Alzamir:-Agora torou dentro.
-Não se preocupe que eu resolvo, ele me disse.
Parei o carro, o guarde se aproximou e falou:
-Farol dianteiro esquerdo apagado, documentos por favor.
Alzamir abril a porta do passageiro e disse para o guarda:
-Ele é meu motorista, o carro é meu, vou lhe mostrar o documento, que está no porta malas, que esse carro é importado.
O documento de carro importado era um encartado do tamanho de uma folha de papel ofício, com os dados da importação etc.
Alzamir abriu o porta malas, já estava escuro, eram oito horas da noite, remexeu pra lá e pra cá e puxou um papel grande e entregou ao guarda.
O guarda com uma lanterna começou a ler o documento em voz alta.
"Mil e duzentas braças de frente, duas mil braças de fundo....
Alzamir gritou:-Essa é a escritura do Ingá, o documento tá misturado com as escrituras no porta malas.Percebeu que o guarda ficou rindo, tirou uma nota de cinquenta do bolso, deu ao guarda e disse "Feliz Natal, vambora motorista e entrou no carro.
O guarda se afastou um pouco e disse:
-Boa viagem, mande consertar esse farol.
Alzamir, deu uma boa risada, virou pra mim e falou:
-Eu não ia dar dinheiro a esse guarda, mas não achei o documento de jeito nenhum e mostrei foi a escritura do Ingá.Você é um motorista arretado, vamos pra casa, em Ponta Negra, comemorar.
Por instinto abriu o porta luvas na sua frente e rindo disse:
- O frexado do documento tá aqui e ficou rindo.....

Chl
Fev/2014

segunda-feira, janeiro 20, 2014

ALÉM DO HORIZONTE



Inconformismo
quase sempre
a mesma coisa
expectativa de mudança
esperança tênue
suportando
o dia a dia.


A rotina
exigências da vida
sobreviver.

Nova vida
novos tempos
novos sonhos
o que sempre
quis
para sempre
além do horizonte.

Chl
Jan/2014


sábado, janeiro 18, 2014

MINHA INFÂNCIA EM SANTA CRUZ II


DINHEIRO ALHEIO

Estes temas que escrevo agora, são passagens marcantes da minha infância e que tiveram grande importância na minha formação e na minha personalidade.
Meu pai, seo Lourenço, era um homem simples, com a formação escolar limitada ao primeiro grau, mas, muito inteligente, trabalhador e humilde.
Tinha um apego todo especial a família, aos amigos e ao ser humano. Tinha também uma obsessão na vida : Honestidade.
Sempre que podia, ele fazia questão de ressaltar isto, comigo e os meus irmãos.
Nós morávamos na casa da esquina do riacho com a rua Ferreira Chaves, que foi construída na mesma época que o tabelião Manoel Soares construiu a dele na mesma rua, com financiamento da previdência social, que existia na época.
Nossos vizinhos eram  Manoel Santana e Maria, Euclides Ribeiro e Domair, Arnaldo eletricista,Pedro Rodrigues, Maria de Zé de Gan (minha avó materna) e seo Ribeiro e dona Joaninha. Depois tinha um lajeiro grande e o oitão do sítio Alto, onde moravam Clodoval Medeiros e suas irmãs.
Certo dia, brincando no jardim da casa de Arnaldo, com os filhos dele, encontrei, na quina da parede da casa, descascado pelo salitre, entre dois tijolos, uma moeda de quinhentos réis. Guardei no bolso do calção e fui pra casa , esperar papai chegar para o almoço, para avisá-lo, pois já estava "escabreiado" com o que aconteceu com o ceguinho.
Quando ele entrou em casa eu mostrei  a moeda e falei:-Achei .
Ele perguntou :-Onde?
-Na casa de seo Arnaldo, enfiado na parede, respondi.
-É dinheiro alheio, ele disse na hora.
Eu nunca tinha escutado essa palavra, dinheiro "alheio".
Ele continuou falando:-Se fosse na rua e você não visse do bolso de quem caiu, era seu, mas, dentro da casa de Arnaldo é dele e vá imediatamente colocar no mesmo lugar que você achou.
Voltei correndo pra casa de Arnaldo, estavam todos dentro de casa almoçando e eu fui no mesmo tijolo da parede descascada e coloquei a moeda.
Quando voltei, papai me chamou e disse :- Quando você quiser dinheiro para comprar, poli,solda,sequilho,confeito ou pirulito , você me peça que lhe dou e quando você receber qualquer dinheiro, achado ou dado, venha me mostrar pra saber de onde veio. Isto é para o seu bem.
Esse é um testemunho de uma parte da minha infância que o faço pela memória do meu pai e sempre que posso transmito esses exemplos aos meus filhos.

Chl
Jan/2014

quinta-feira, janeiro 16, 2014

MINHA INFÂNCIA EM SANTA CRUZ I

                                               

 O PRIMEIRO SALÁRIO

A primeira vez que ganhei dinheiro por prestar um serviço, foi guiando um cego.
Brincávamos na calçada do riacho, esquina com a Rua Ferreira Chaves (hoje João Bianor Bezerra), onde ficava a minha casa na esquina.
Estávamos jogando biloca com Didia, filho de João Serafim, quando escutei uma voz chamando:
- Menino, menino, onde fica o correio? 
O correio ficava na outra esquina , uma rua depois da minha casa, no mesmo lugar que está hoje, Rua Senador João Câmara com Av. Rio Branco (antigo riacho das Craibeiras).
Era um ceguinho com uma bengala e uma bacia (meia banda de uma lata de queijo de Minas).
Eu me aproximei e falei:
- É ali na outra esquina, ceguinho. 
Ele me perguntou
-Você pode me guiara até lá?
-Posso, respondi.
Ele estirou a bengala, eu segurei e comecei a puxá-lo na direção do correio. Quando chegamos lá, eu avisei que tinha chegado e ele enfiou a mão em um bisaco que levava, tirou uma moeda de quinhentos réis e me deu.
Fiquei feliz demais. Corri pra casa e fui mostrar à papai.
-Painha, painha, ganhei quinhentos réis que o ceguinho me deu por que eu guiei ele pro correio.
Seo Lourenço olhou pra mim e disse:
-Venha cá meu filho. Ceguinho não pode trabalhar e precisa de dinheiro e nós é que temos que dar dinheiro aos cegos e não receber deles. Pegue um tostão e vá já devolver o dinheiro dele.
Corri de volta pro correio, sem entender direito por que teria que devolver o primeiro salário que ganhei na vida.
Voltei e encontrei o  ceguinho sentado na calçada do correio, balançando a bacia com algumas moedas dentro.
-Ceguinho, eu falei, papai mandou devolver seu dinheiro e mandou mais um tostão para o senhor. 
Joguei as duas moedas dentro da bacia.
O ceguinho perguntou:
-Onde você mora?
-Na casa da esquina, onde eu peguei o senhor.
-Há, disse ele, você é filho de seo Lourenço da usina, né? Diga a ele que Deus o pague e proteja a sua família.

Chl
Jan/2014

segunda-feira, setembro 23, 2013

SECA

Açude do Alívio-Sta.Cruz/RN(Foto: André fotos)

Vendo a lama do porão
Tristeza do pescador
Rezadeira com andor
É de cortar coração
Sofrimento no sertão
mas, resistir é preciso
O sol não manda aviso
Só muita força e fé
No alívio do Inharé
A seca rasga seu riso.

Chl
Set/2013

domingo, setembro 22, 2013

JK EM SANTA CRUZ


1955. O mineiro Juscelino Kubitschek estava em campanha para a presidência da república do Brasil.
Lançado pelo PSD, partido liderado no Rio Grande do Norte pelo Deputado Theodorico Bezerra, expressiva liderança do Trairi, JK veio ao estado em campanha.

O Major Theodorico, certamente queria que o candidato fosse visitar sua região, o Trairi; assim ficou acertado.
Em Santa Cruz, uma vaquejada estava pronta, esperando a visita do candidato. O palanque da rua Grande, hoje rua Dr. Pedro Medeiros,ficava defronte ao beco onde morava seo Calú, entre as casas de José de Lima e João Ataíde Pereira, tabelião da cidade.
Chinês e Ozael, motoristas da firma Theodorico&Bianor, saíram cedo para Uirapuru, em uma baratinha, para esperar JK.

Uirapuru era a fazenda do Major, situada no distrito de Riacho, do município de Santa Cruz. Depois de emancipada e virar cidade, passou a se chamar Tangará, nome escolhido por Theodorico Bezerra. Uirapuru e Tangará, são dois pássaros da fauna brasileira, da região da Amazônia e diz a lenda que quando o Uirapuru canta, o Tangará dança.

Os motoristas chegaram e juntaram-se a uma comitiva que já esperava a chegada de JK. De repente, um barulho no céu, todos perplexos, olharam para cima e vislumbraram o avião que trazia o candidato e iria pousar no campo do Uirapuru.

Chinês, que nunca tinham visto um avião, saiu rapidamente do carro, onde estava sentado e ficou olhando pra cima, com a mão escorada no veículo. A porta semi aberta, recebeu uma lufada de vento forte e fechou, em cima dos dedos de Chinês.
Quando ele, depois de soltar um grito e um palavrão, olhou para o dedo polegar,viu que já estava ficando "arrochicado" e ele, irado.

O candidato, acompanhado de Theodorico e outros políticos do PSD, seguiram para Santa Cruz. A cidade estava em festa.
Eu, com seis anos de idade, fiquei em pé na janela da Delegacia de Polícia, hoje casa de cultura, que tinha uma visão privilegiada para o páteo da vaquejada. Por uma deferência do Delegado, Lourenço, meu pai, ficou na janela, segurando minhas pernas, na sala da delegacia.

Quando JK, entrou na pista, acenando para o povo, Manoel Madalena, fogueteiro da cidade, com um tição na mão, tocou fogo em uma fileira de foguetões, enfiados no chão, transformando o fogaréu em uma girândola. Os moradores do Paraíso, disseram que não ficou um só cachorro em casa, com o tiroteio, correram todos para o alto do Cruzeiro, hoje, Alto de Santa Rita.

Theodorico mandou pintar os bois duros, de vinte e cinco arrobas, com o nome PSD e os mais fraquinhos, pintou com as cores da UDN.
Micael, udenista juramentado,liderado do chefe da UDN, Antônio Ferreira de Souza, ficava irado e reclamando.

Os discursos foram feitos, JK presenciou algumas carreiras e depois foi embora, satisfeito com a festa que o Major preparou para ele.

Aconteceu um fato curioso na vaquejada, depois que a comitiva foi embora. Os páteos de vaquejada, ao contrário de hoje, era no barro duro, a porteira de saída dos bois eram largas como as porteiras normais das fazendas; os bois desenvolviam uma velocidade muito grande ao sair, que era um risco muito alto de acidentes. João Lourenço,de Santo Antônio, na beira do Rio Trairi, correndo em um cavalo melado(amarelo queimado),quando puxou o boi, ouviu-se um estalo grande, em vez do boi, o cavalo foi quem quebrou a perna, no meio da pista. Meu avô Zé de Gan, chegou muitas vezes em casa, carregado por quatro homens, com a cabeça pendura, sem sentido e sangrando pelos ouvidos, em consequência de quedas nestas pistas duras. 

Terminado tudo, o povo radiante com a vinda de JK, Chinês, sentado na calçada de sua casa, na rua Ferreira Chaves, rua da usina, ao lado de Cleonice, sua esposa, ouviu um amigo que passava e disse:
- Chinês, você é um homem de sorte, viu o futuro Presidente, bem de pertinho. 
Chinês olhando para os dedos roxos e inchados, respondeu em cima da bucha -Eu tenho ódio desse infeliz, acabei com meus dedos, por conta dele.

PS. A ponte do Paraíso e o Açude Novo, foram construídos em 1958, com JK, Presidente da República.

terça-feira, setembro 03, 2013

ZÉ PINTO II


Zé Pinto tinha problema de coração, o que o vitimou ainda moço, assim como fez com dois dos seus filhos.
Já aposentado, passou uns dias sem beber,andava proseando pela rua,com um tradicional cipozinho na mão.
Um belo dia, sentindo-se melhor, resolveu  convidar Joaquim Lelê, seu amigo inseparável, para tomar uma caninha, pois tinha recebido uns preás, que Valdir caçou e queria comer como tira-gosto.
No sábado de tarde, na bodega de Chico Bernardo, eles sentaram e pediram uma garrafa de Pitú; Zé Pinto desembrulhou um pacote e colocou o preá, já torrado , na mesa.
Passou uma pessoa e viu Zé Pinto com o copo de cana na mão e perguntou:
-Zé Pinto, você não deixou de beber ? Ouviu a resposta em cima da bucha.
- Eu eu morri ?
Lá pras tantas, Zé Pinto que tomava diurético com o remédio pro coração, levanta pra ir no banheiro.
Quando volta pra mesa, o preá tinha sumido.
-Cadê o tira-gosto de preá que eu trouxe ?
Lelê disse, "eu não vi", outro companheiro na mesa falou,"eu também não vi nem a cor, deve ter sido um espírito que levou".
Zé Pinto, botou a cana no copo, ficou olhando, olhando...sabendo que ia engolir pura, saiu com essa:

Espírito que vai e vem
bate asa como preá
aquilo que Deus não quer
paciência.

E engoliu a lapada de cana pura, sem tira-gosto.

ZÉ PINTO


José Pinto de Souza, motorista profissional, proprietário de caminhão, era uma pessoa querida e notória em Santa Cruz.
Boêmio inveterado, gostava de tomar cachaça nos fins de semana e tinha um grande senso de humor.
Casado com Rita Bezerra, tinham nove filhos,cinco homens e quatro mulheres.
Certo dia, passava da meia noite, quando bateram na porta da casa dele, ao lado da Usina,vizinho de Tito Teixeira, na antiga rua Ferreira Chaves, hoje João Bianor Bezerra.
Zé Pinto levantou-se e disse pra Rita:
-Quem danado vem bater na porta do povo, uma hora dessas, deve ser alguma viagem urgente.
Quando abriu a porta de casa,estava escuro,só tinha o clarão da luz do poste na rua,viu duas pessoas "encangadas";com extremo senso de humor, ele perguntou,"quem pode mais do que Deus"?
Um dos encangados falou:
-Sou eu seu Zé Pinto, Meireles,e esse aqui é Valdir, que bebeu um pouco demais e estou trazendo ele pra casa.
Zé Pinto vendo aquela cena, focou a lanterna na cara de Valdir pra reconhecer e começou a fazer elogios a Meireles.
-Neguinho, você é um homem, amigo, leal, sabe beber e se comportar nos lugares,não é esse irresponsável do meu filho, que não sabe beber, fica embriagado, dando trabalho aos amigos.
Muito obrigado Meireles, vou levar ele pra dentro.
Quando Zé Pinto puxou Valdir, Meireles danou-se no chão.Os dois estavam escorados um no outro.
Nessa hora, Zé Pinto gritou:
-É tudo do mesmo time, vá "simbora" Neguim, senão eu vou chamar Meireles,seu pai, pra lhe carregar no lombo da burra dele.

Chl
Set/2013

quarta-feira, agosto 21, 2013

TEMPO DE CRIANÇA


O morcego em caminhão
O joguinho de biloca
Os meninos da maloca
Na bicicleta ou cambão
O dia da procissão
As menininhas de trança
Me trazem muita lembrança
Vendo a chuva na calçada
Dá uma saudade danada
Do meu tempo de criança.


Chl
Ago/2013



SABOR DO VINHO


Lembranças vagueiam
por lugares distantes
momentos ímpares
desejo rígido
corpos em frenesi
frêmito de lábios
calor das entranhas
fazem vibrar
o líquido no cálice
como cristal.

Chl
Ago/2013