sexta-feira, setembro 23, 2016

ENGOLE BRASA

Manoel Possidônio , conhecido como Manoel Engole Brasa, era um comerciante de jóias ambulante e garimpeiro . Andava nas ruas de Santa Cruz com uma pasta, com vários "panos de jóias". Trata-se de uma peça de veludo, geralmente azul, encrostada de jóias de ouro e brilhantes. Uma pasta de couro, larga, grande e sempre andava bastante pesada. Vivia bem, ganhava bastante dinheiro, o que lhe proporcionava uma vida bem estável com a sua família .
Manoel, entretanto, gostava de parar em um bar , quando terminava sua tarefa comercial, para tomar uma bebida. Os amigos e conhecidos, tomavam cervejas, conhaques, mas Engole Brasa, apreciava a aguardente. Tomava bem e com muita frequência, voltando, as vezes pra casa, meio embriagado.
Com o passar do tempo, Manoel aumentou sua frequência nos bares e diminuiu suas vendas de ouro. Sem se dar conta, aos poucos foi se tornando alcoólatra e a sua pasta a ficar vazia e muito maneira, até que chegou um dia e ele não tinha mais mercadoria.
Chegava pela manhã, logo cedo, no bar de Chagas Farias, com uma pasta recheada e pesada, que um dia os amigos resolveram abrir e em vez de ouro, tinha uma rede, para encher a pasta e um paralelepípedo, para ficar pesada.
Chegava tremendo, da bebida do dia anterior, estirava a mão trêmula sobre o balcão e pedia :
- Me dê uma brasa aí, que a tremedeira hoje tá com a "mulesta".
Depois de três "brasas" ele estendia as duas mãos sobre o balcão, olhava para as pessoas e dizia:
- Tão vendo, já parou de tremer e agora eu vou engolir outra brasa.
Foi daí que surgiu o apelido : Manoel Engole Brasa.
Antônio, era irmão de Manoel, garimpeiro também e resolveu um dia , abrir uma mercearia, com um bar, na Rua Caminha Fiúza.
Era baixo, sorridente, falava com a língua meio enrolada, mas era uma pessoa magnífica . Honesto, trabalhador e gente muito boa. Ele e o soldado Andorinha, foram as duas únicas pessoas que eu permiti garimpar na propriedade da nossa família , sem nunca conferir o resultado de suas pesquisas, porque confiava integralmente nos dois.
A rapaziada da cidade que gostava de tomar um banho no "Açude Novo", na volta entrava no bar de Antônio Engole Brasa, que mesmo sem beber, herdou o nome do irmão, e que todos passaram a chamar o "Bar do Brasa ".
Eu, Lourencinho, meu irmão, e mais, Serafim, Iaponam ,Livio, Crézio, Bubu, Joca Lindo, Edson Cara Curta, Zé Domingos, Antônio Luiz de Zé Dobico, Rosemilton, Dinarte de Pedro Severino, Félix de Zé João, Djair de Ivahy, Gilvan de Talau, Lila, Hiltinho , Wilson de Cabral, Mananciel, Hudson Fonsêca, Fabinho de Lula Farias, Geraldo Golinha, Fernando Bocão, Helio Mendes, Zezinho de Hosana, Roberto Umbelino e Munheca e vários outros companheiros de juventude.
A turma chegava sentava na mesa e começava a azucrinar o pobre do Brasa:
- Traga um litro de Pitú, duas coca-colas , três limões e uma corda de piaba pra tira gosto.
As cordas de piaba, ficavam no quintal , penduradas nos caibros e cobertas de moscas. O Brasa vinha com uma peixeira, batia na corda, as moscas voavam e ele cortava uma fieira de piabas, levava pra cozinha e jogava na frigideira, já com óleo fervente e fritava. Era bom demais, uma iguaria que eu acho que só ficava boa daquele jeito, por conta das moscas. Tinha também, curimatã, traíra, cará e galinha torrada.
Serafim andou por São Paulo um tempo e chegou cheio de novidades em Santa Cruz. Só não chegou chiando, porque os que eu conheci que foram pra São Paulo e voltaram chiando, eram Munheca e Tino de João Chicó, meu primo.
Fomos para o bar de Brasa e quando pedimos as bebidas, Serafim gritou:
- Brasa, traga um Pizza Calabresa e depois um Espaguete ao Sugo - comidas bastante comuns em São Paulo. Brasa gritou de lá :
- Hoje num tem esses troços aqui não, mas Sábado eu compro na feira. Hoje só tem a piabinha que você gostava muito antes de ir pro Sul.
Depois Antônio melhorou de vida e comprou o prédio onde era a fábrica do Molho Inharé e transformou em um hotel : Hotel do Brasa. Era o maior hotel da cidade.
Um belo dia , chega Iaponam com uma turma de Natal em três carros, com umas moças , para beber e farrear na cidade. Ele que morava em Brasília, quando chegou, soube que o Brasa estava com um hotel novo e dirigiu-se pra lá , pra tirar o juízo do coitado do Antônio. Chegou lá, foi entrando, viu o Brasa na recepção e foi gritando:
- Brasinha meu amigo, vim prestigiar seu hotel, estou com uns amigas e umas amigas e quero três apartamentos.
Brasa olhou pra Iaponam , fez uma arzinho de riso e meio gaguejando disse :
- Gordinho, o meu hotel é organizado e pra você se hospedar com seus amigos, têm duas condições.- Iaponam disse, não tem problema , eu resolvo, quais são as condições?
- Bem Gordinho , primeiro você me paga um vale que tem aqui, desde o tempo da Caminha Fiúza e depois me traga a certidão de casamento sua com essa moça, porque aqui é um hotel familiar. Se resolver, aqui estão as chaves.
Iaponam disse :
Vôtss, sendo assim eu vou me hospedar lá em Maria Anjo.
Chl
Set/2016

sábado, setembro 03, 2016

MORTES QUE MARCARAM A CIDADE

 Quero relatar alguns fatos, tristes, mas que marcaram a comunidade santacruzense.

Dudu de Plácido, era um rapaz feliz, brincalhão, mas também valente e esquentado. Jogador de futebol, atuava no campo 4 de Março, administrado por Anisio Carvalho.
Gostava de se divertir com os amigos e tomar uma cervejinha no reservado do bar de Geraldo Lourenço e Tia Litinha, que era na rua Grande e fazia esquina com o Beco de seo Plácido . Seo Plácido, era o pai de Dudu e tinha uma mercearia no beco, bem próximo do bar de Litinha.

Outro cliente do bar era Zé Pinto, que parava o caminhão na rua Grande e ia para o reservado do bar , que ficava na parte de trás. Um dia que Zé Pinto estava no bar , estavam sentados em uma mesa do lado, Dudu e Nilson Lima , tomando uma cerveja e batendo papo.

Sabendo que Dudu frequentava muito aquele local, pois era vizinho de sua casa, Coleta que teve desavenças anteriores com ele, entrou no bar, acompanhado com um amigo, chamado Zé Vicente, já com uma faca na mão. Dudu estava de costas , mas foi avisado por Nilson e levantou-se, já para enfrentá-lo, quando foi segurado por trás por Zé Vicente, Coleta  desferiu vários golpes de peixeira e ceifou a vida do jovem goleiro do time de Santa Cruz, Dudu.

Coleta ficou preso na cadeia pública da cidade, eu mesmo, ainda muito criança, o vi várias vezes, sentado na mureta da delegacia, quando passava na frente e papai dizia, " esse foi quem matou Dudu".

Manoel Benício, era um homem de estatura baixa, com um bigodinho e usava um chapéu preto de massa, geralmente estava calmo, era alegre e até sorridente. Eu o conheci já como prisioneiro na delegacia de Santa Cruz, em regime semi-aberto, trabalhava como pedreiro. Só foi terminar de cumprir a pena e ser liberado que Manoel Benício começou a ter problemas. Um dia cismou e saiu de casa, murmurando por onde passava:
-Hoje eu mato um.
Passou na frente do estabelecimento de Moisés Pinheiro, onde hoje é o mercado público, chegou na porta, encarou Moisés e repetiu: - Hoje eu mato um - Moisés abriu a gaveta, puxou um 38 cano longo e respondeu - Aqui você vai levar é chumbo, se vier com essa conversa.
Manoel saiu ligeiro de lá e tomou o rumo do Paraíso, atravessando o rio Trairi, que estava seco, correndo apenas um filete de água misturada com esgoto. No início da Av. 1, encontrou um baiano, que se dizia, pai de santo, trocou duas palavras e deu-lhe uma peixeirada certeza no coração e correu.

Tempos depois, já em regime de condicional, chegando perto de uma banca de carne na feira, iniciou uma discussão e antes que pudesse pegar a faca, o jovem marchante que já estava com uma faca amoladíssima de cortar a carne, foi mais rápido e acertou Manoel Benício, com várias cutiladas e o deixou estirado sem vida na calçada da feira.

Em outro dia de feira, na esquina da farmácia de Sebastião Rocha, Assis de João Salustio, desentendeu-se com Zé de Floriano e no meio da discussão, Assis sacou um revólver e disparou várias vezes em Zé que foi atingido e caiu na rua. Terezinha Nunes, filha de Zé Nunes e Liô Ferreira, vinha subindo  a rua Grande, na calçada,  assustada, caiu com um desmaio e ficou no chão. Assis ao ver Tetê no chão, imaginou que a tivesse acertado com um tiro , apavorado, apontou o revólver contra si e disparou. Tetê foi socorrida sem ferimento, apenas com um grande susto e na rua ficaram estendidos os corpos de dois rapazes, filhos de Santa Cruz.

Chl
Set/2016

domingo, agosto 28, 2016

A MISSA DE DOMINGO

Em Santa Cruz, a missa do domingo sempre foi tradicional, em dois horários, pela manhã, cedo, e no início da noite. Papai ia sempre pela manhã e nos levava, Jair, Lourencinho e eu. Íamos caminhando de casa até a igreja, mas no caminho, na rua Grande, ele entrava na Farmácia de tio Zé Dadá para conversar. Geralmente, encontrava por lá, Clovis Medeiros, Clodoval, Severino Paulino, Orlando Mouco, João Ataíde e Gastão. Na saída , invariavelmente, tio Zé Dadá, nos dava uma latinha de Pastilhas Valda e nós fazíamos a festa com ela.

Na missa da noite podia-se encontrar na calçada da igreja, Zé Matias, Irineu Duca, Pedro Nunes, Dula, Pedro de Tico, Joaquim Tavares, Joca Moreira, Chico Adriando, Chico de Juca, Edvaldo Umbelino, Mané da Viúva,Manoel Anisio, Sebastião Penha e mais alguns outros, moradores da rua Grande e da rua Daniel. Depois da missa, sentavam-se na calçada de Furtado, em frente da casa de Miguel Cury, Joseluce, Josias Azevedo, Antônio de Hosana,Miguel Farias, seo Quim Quim, Zé João, Sérvulo Orago e Dr. Demócrito.
Na outra esquina, do bar de Seo Lauro, em frente a barbearia de Pedro Dantas, ficavam, Severino Culête, Mosquitinho, seo Horácio, Pedro Amarante, Zé Walderi, Zé Dadão e João Lucas.

Um dos frequentadores da missa era Absalão, que morava na rua Ferreira Chaves, ao lado da casa de seo Gato e Chico Bento, e do outro lado, Alexandre Calça Curta e seo Aquino. Em frente, moravam Pedro Rodrigues, dona Mariinha de Zé de Gan ( minha avó) e seo Ribeiro.
Na igreja existiam uns bancos particulares, pertencentes a algumas famílias e também, cadeiras individuais, para sentar e se ajoelhar. Absalão tinha uma cadeira dessas na igreja.

João de Gan, ainda jovem, frequentava a missa da noite e depois ia para a praça, conversar com os amigos e olhar as moças. Gostava de passar na casa de Cleto Antunes, vizinha do bar de seo Lauro, pra ver se via Lenise. Sempre foi muito brincalhão e gostava de mexer com os amigos e dar boas risadas.

Um dia chegou na igreja e foi entrando na hora da missa. Viu Absalão, ajoelhado em sua cadeira, no meio da igreja, rezando com a cabeça abaixada, entre as mãos. João, foi se aproximando, silencioso, como estava toda a igreja, com Padre Emerson, fazendo a oração, falando baixinho. Chegou perto de Absalão e com os dois dedos indicadores, cutucou, com força, as costelas do coitado que rezava. Absalão, pego de surpresa, deixou escapar, sem querer, um pum tão alto que toda a igreja se virou pra ver o que era. Absalão continuou de cabeça baixa, rezando, e olhando com rabo do olho, para ver quem danado tinha feito aquilo. Os olhos de todos na igreja, só enxergavam João de Gan, que estava em pé, logo atrás de Absalão. Todos imaginavam que havia sido João, o autor do estrondo.

João, vermelho, da cor de um tomate, começou a andar de costas, passo a passo, até a porta da igreja. Sem falar com ninguém, desceu os batentes da calçada e saiu andando rápido, pelo beco das almas, passou pela praça e foi direto para o Bar Savoy, de Augusto Fernandes. Olhou pros fundos do bar e viu, Paizoca e Zé "Zanolho", jogando na sinuca de Chicó Flor. No bar, viu Zé Cabral, da padaria, sentado em uma mesa, tomando cerveja e comendo rodelas de pão com molho Inharé, fabricado em Santa Cruz. Puxou uma cadeira, sentou na mesa de Cabral e gritou:
-Assiiiss , traga uma cerveja bem gelada.
Virou-se pra Zé Cabral e falou:
Cabral, por favor, vamos mudar de assunto. - Cabral, sem entender, respondeu baixinho, - mas nós não começamos nem a conversar.
João pensava que a cidade toda já sabia, da explosão da igreja.

Chl
Ago/2016

sábado, agosto 20, 2016

JOÃO DE TICO E SABOROSO



Geralmente o que escrevo aqui, são relatos baseados em fatos reais, evidentemente, adequando às características do texto. Contos, causos, quase sempre com humor e descontração, mas , no caso deste texto, preciso descrever um fato triste, porém marcante para a comunidade santacruzense .

João de Tico morava na rua Lourenço da Rocha, esquina com a rua Pe. João Jerônimo, de frente para a casa de Miguel Farias.Saboroso era o apelido de um cidadão que andava pelas ruas da cidade, com um caldeirão grande na mão , vendendo doces "sonho de noiva". Andava na cidade, de bermudas, com o caldeirão e gritando alto: saborosoooooo.
O que lhe fez jus ao apelido.

João de Tico, casado com a Professora Margarida Queiroz, pai de Marcos, conhecido na cidade como Tchan. Saía diariamente para seu sítio na Caiçarinha, montado em seu possante jumento, mestiço de pêga, bom de sela, com a passada macia e também, bom de cangalha, quando era preciso. Na hora de sair, colocava dois litros e meio de milho, de molho em uma bacia, para alimentar o jumento, na volta do roçado, por volta das onze e meia da manhã, todos os dias.
Era magrinho de meia altura, simples e alegre, falava "assungando " as calças, para se fazer entender. 

Um dia voltou do roçado, exatamente onze horas, para chegar em casa às onze e meia, hora de alimentar o jumento, que já saía com o passo apressado, guiado pelo instinto e a vontade de comer. Passou numa passada ligeira por toda extensão da Cravina, e João, de olho na BR.

Saboroso, passou pelo Apolo 11, nessa mesma hora, atravessou a pista, ao lado da casa de Maria Anjo, e desceu na margem da rodovia, gritando, saborosoooooo.Já ia passando no cruzamento da BR com a continuação da rua da Cravina com a entrada para a cidade, próximo da oficina de Vicentinho e da casa de João de Gan.
Do outro lado, vinha descendo João de Tico, já freiando o jumento , que descia muito rápido, com a cabeça virada, sem atender ao freio.

Vindo de Currais Novos, na direção de Natal, apontou uma carreta cegonha de transportar automóveis ,que passou muito veloz na frente do posto de gasolina e desceu ao lado do DNER.
Ao se aproximar do cruzamento o motorista viu o jumento de João de Tico , começando a atravessar a pista, buzinou estridente, tentou freiar e desviou o caminhão. Ao tentar desviar, entrou no acostamento e atingiu em cheio, Saboroso, que foi atirado longe, na vala encostada ao início do Riacho do Pecado.
Na manobra brusca, a carroceria acertou com força, João de Tico, montado no seu jumento que foi atirado longe.

Foi uma comoção geral em toda a cidade de Santa Cruz.
Sinto-me na obrigação de relatar, para resgatar a memória daquele povo e das pessoas que ajudaram a construir aquela comunidade.

Chl
Ago/2016

sexta-feira, agosto 19, 2016

LUIZ DE PRIMO

Primo Pereira era um homem de estatura média, com uma perna mais curta do que outra, proprietário da Fazenda Camará, na Serra de Santo Alberto. Homem respeitado por sua seriedade, simplicidade e honradez. Após a morte de sua esposa, na cidade de Cruzeta, onde moravam, ele dividiu a propriedade entre os filhos, Luiz, Pedro, Manoel e José. Luiz ficou com a sede da fazenda e os outros três ficaram com as partes anexas. Cada um fez sua própria sede.

Pedro, Manoel e José eram agricultores e viviam inteiramente dedicados às suas famílias. Luiz, além de agricultor era comerciante e fazia negócios nos municípios vizinhos de Santa Cruz, como Campo Redondo e Coronel Ezequiel. 

Primo resolveu tomar Lourenço como compadre, pois eram amigos e vizinhos de propriedade, e o afilhado escolhido foi Luiz, que só chamava seu padrinho de "Padim Lórenço". Vendia toda a safra de algodão na usina de Nóbrega & Dantas que Lourenço era o gerente. Todas as atividades da fazenda, que Luiz tinha alguma dificuldade, consultava "Padim Lórenço.

Tempos depois quando assumi a gerência da usina e passei a comprar a safra de algodão de todos os filhos de Primo, que eram meus amigos, especialmente José que era meu vizinho na rua Antônio Henrique, comprava também todo o algodão que Luiz adquiria de outros agricultores, como comerciante.
Em julho de 1981, com o falecimento do meu pai (Lourenço), resolvi levar minha mãe (Marinete) em uma viagem de 25 dias pela Europa, para ajudar a superar a perda e afastá-la um pouco do clima pesado que ficou em nossa casa. No final de 81 e início de 82,viajamos.

Deixei tudo acertado no Banco do Brasil, através de promissórias rurais, no dia 15 de Dezembro de 1981, todos os pagamentos do algodão recebido dos maiores fornecedores e que ainda entregavam o produto. Preço feito, quantidade acertada, pagamento assegurado, viajei.
Quando estou no hotel em Viena, na Áustria, recebo um telefonema de Santa Cruz, era Fátima minha secretária, avisando que houve um erro do funcionário do banco, justamente no contrato de Luiz e precisava de um nova assinatura minha. Eu ainda demoraria duas semanas pra voltar. Foi o suficiente. Os brincalhões começaram a aperrear Luiz, dizendo que eu havia fugido com o dinheiro dele.

Luiz que acreditava em tudo, saiu falando com todo mundo dizendo:
- Chaga de Padim Lórenço, pegou meu dinheiro e danou-se pro "estrangeiro"e nem sei se volta mais. O pior é que Padim morreu e eu não tenho quem me ajude.
Mandei pedir pra Lourdes Apreciado, em quem ele confiava, que era chefe do escritório, para explicar que , que em 15 dias eu chegaria e acertava tudo.
Xavier, gerente do BB, também ajudou a tranquilizar o agoniado Luiz.

Papai quando deixou a gerencia da usina, dedicou-se inteiramente à fazenda e duas vezes por anos, vacinava o gado contra o baba (aftosa) e incentivava os vizinhos a também vacinar o rebanho deles.

Um dia encontrou Luiz e foi logo ouvindo, "bença padim",-Deus te abençoe, meu filho - respondeu papai- já vacinou seu gado ?
- Ainda não.
- Pois compre a vacina na cooperativa que no domingo eu levo os homens pra vacinar.
Meia hora depois chega Luiz no escritório.-Pronto, comprei. Ô remeidim caro da mulesta, padim. Domingo eu espero o senhor.

No domingo, logo cedo, papai pegou Manezão e Cassimiro, que trabalhavam na usina e seguiu pra Sto. Alberto para levar Zé Zuca, Zé Preto e Olinto Lourenço, para ajudar na vacina.
Chegando no Camará, o gado já estava preso, eram uma 50 reses, e começaram a laçar os mais mansos e vacinar.

Uma hora depois, já haviam vacinado mais da metade e restava só o gado mais arisco, então Lourenço pediu:
- Luiz, meu filho, traga uma parede (tira-gosto) pros homens tomarem uma, que aqui só tem "imbu".
Luiz imediatamente gritou :- Joana , padim tá pedindo uns pedaços de galinha.
Salete prontamente trouxe e começaram a comer e beber. Recomeçaram a vacina e o gado mais arisco começou a dar trabalho, pra laçar e pegar "a muque".

Mais uma hora e ainda faltando umas cinco reses, Lourenço pediu de novo, outra parede.
Luiz, levantou-se foi até a cozinha e disse, baixinho:
-Salete, bote logo meu almoço, antes que padim e esse cabras acabem com a galinha toda.

Chl
Ago/2016



O MOTORISTA DO PADRE

Mosenhor Emerson Negreiros, foi pároco de Santa Cruz, por muitos anos. Foi responsável pela construção da atual Igreja Matriz, de Santa Rita de Cássia, edificada no mesmo local onde antes existia uma pequena igrejinha.
Tinha muitas atribuições na comunidade, além de administrar as capelas dos distritos vizinhos, como, Melão Japi, São Bento do Trairi, Campo Redondo, Lajes Pintadas etc. Para isso utilizava um Jeep Willys, que percorria todas essas localidades, com o auxilio de um motorista, Veludo.

O padre tinha um grande envolvimento com a comunidade e participava de ações comunitárias como esporte, música , teatro e cinema. Reunia alguns jovens, no alpendre da Casa de Dona Júlia, onde hoje é o Bairro 3 a 1, para tocar sanfona, violão e cantar.

Veludo era seu auxiliar de todas as movimentações e viagens. Era um negro forte, alto, risonho e brincalhão, toda a cidade gostava de Veludo.

Em uma de suas folgas, avisou ao padre que iria com uns amigos para uma festa de rua , com barracas e leilão, em Campo Redondo.
Chegando na festa, sentou-se em uma mesa e imediatamente pediu uma cerveja, casco escuro e super gelada; já botando banca.

A cerveja chegou, começaram a beber, pediu mais outras, até que começou o leilão. A primeira galinha assada que saiu, Veludo arrematou, apenas levantando o braço, sem sequer saber qual o preço que estava. Continuou bebendo e arrematando, apenas as galinhas, que já somavam seis.

Já era madrugada, o leilão havia terminado, quando as pessoas começaram a ir pra casa e a festa dando sinais de terminar. Veludo , nessas alturas, já estava meio embriagado, mas bem consciente de tudo que se passava. Olhando para um lado da barraca, percebeu que a comissão do leilão estava passando nas mesas para arrecadar o dinheiro dos arrematantes. Veludo era um dos maiores.

Quando a comissão chegou na mesa vizinha, Veludo encheu um copo com cerveja, bebeu todo de um gole só, olhou para um lado e para o outro, revirou os olhos e caiu com o rosto em cima da mesa, quebrando garrafas, derrubando copos e o prato de farofa com os ossos das galinhas.
- Corre, corre, acudam aqui - gritava o chefe da comissão do leilão.
Veludo, babava, revirava os olhos, roncava alto e respirava agitado com dificuldade.
- Pega um carro e leva esse homem pra Santa Cruz agora, direto pra Maternidade (único hospital que existia), manda acordar Dr. Ferreirinha ou Dr. Demócrito para acudi-lo - ordenava Manoelzinho Norberto, tabelião.

Os amigos de Veludo que tinham fretado um jeep de quatro portas, para ir à festa, colocaram-no deitado no banco de trás e aceleraram para Santa Cruz. Depois da descida da Serra do Doutor, quando passou na Malhada Vermelha e entrou na curva do Riacho Fechado, de Joaquim Tavares e chegando na entrada para Lajes Pintadas, Veludo abriu os olhos e perguntou - Já passamos do Bento Nunes ? -Já, respondeu Meireles - já estamos chegando na entrada do açude do Alívio. Veludo levantou-se e disse:
- Vamos tomar a saideira lá em Maria Anjo, que eu faço um vale lá. Vou passar uns dois anos sem ir em Campo Redondo.

Todas as vezes que o padre ia pra lá, Veludo tinha febre, diarreia, dor de cabeça etc. mas pra Natal , não tinha doença que impedisse porque ele adorava a capital.

Mons. Emerson ia com frequência à Natal, fazer compras para a paróquia e resolver alguns assuntos da Diocese. Em uma dessas viagens ele pediu para veludo passar no Alecrim, na Igreja de São Sebastião, para trocar umas ideias com o pároco de lá. Entrou na casa paroquial, ao lado da igreja e Veludo estacionou o Jeep do outro lado da rua, na sombra de um "pé de fícus", em frente a uma padaria.

Eram quatro horas da tarde e Veludo já estava sentindo fome e sabia que só iria tomar uma sopa, mais tarde, lá nas Marias , depois da Reta Tabajara, pois o padre sempre parava lá. Justo nessa hora, a padaria começou a retirar do forno, o pão da tarde e o cheiro invadiu as narinas de Veludo, que encheu a boca d'água. Entrou na padaria, pediu um pão francês dos grandes, comprou 50 gramas de manteiga de lata de 18 kg, daquela que Dona Zefinha, vendia na padaria e Waldeci de Mário Pinto, vendia na feira, enrolada num papel celofane. 

Encoutou-se no pé de fícus e começou a comer o pão. Nessa hora, passou uma senhora, elegante, bem vestida e puritana, que devia ir para a igreja se confessar; olhou pra Veludo, com desdém e falou, em um tom grave:
- Devia ter acanhamento, comendo um pão no meio da rua.
Veludo, bem calmo, olhou pra mulher e respondeu :
- Eu vou bem alugar uma casa só pra comer um pão.

Chl
Ago/2016



sábado, agosto 13, 2016

O LIVRO DO CARTÓRIO

Zé Fonseca era o tabelião do cartório de registros civis, antecessor de Manoel Soares de Oliveira, donominado Sgundo Cartório , o primeiro cartório era o de registro de imóveis, do tabelião João Ataídes Pereira.
Naquela época todos os registros eram escritos à mão em livro próprio e com tinta líquida e pena ou caneta tinteiro.
O tabelião José Fonsêca, chamado, Zé Fonsêca, costumava transcrever todos os registros de uma vez só, cada dia pela manhã, em seguida colocava o livro em um lajeiro raso que existia na frente de sua casa. Lá estavam todos os registros de nascimento, casamento e afins.

Um belo dia , após a transcrição de alguns registros, utilizando uma tinta novinha recém-comprada, Zé Fonseca, abriu o livro no lajeiro, embaixo de um sol brilhante de verão e entrou em casa para esperar a tinta secar e recolher , já devidamente seco no ponto de guardar na prateleira.
Uma pessoa chegou para fazer um registro de nascimento e como era conhecida do tabelião, sentou-se e puxou conversa para atualizar os assuntos da cidade e contar as novidades dos amigos comuns.

Depois de uma hora e meia de conversa, Zé Fonsêca, pediu licença, levantou-se e saiu para pegar o livro. Tomou um susto, o bendito livro não estava no lajeiro. Ele correu até mais adiante procurando e percebeu em um canto da rua perto de uma pequena moita de mato e grama pé de galinha, uma coisa escura e logo percebeu que se tratava da capa do livro. Apavorado, pegou o livro , que só tinha as capas e levou pra casa. Na volta percebeu uma vaca que andava procurando o que comer, com os restos de umas folhas de papel na boca. Ele disse pra si mesmo:
- A vaca comeu meu livro.

Voltou pra casa chateado e tratou imediatamente de comunicar ao juiz o acontecido , explicando que

só alguns registros haviam-se extraviado. O juiz compreendeu e disse:
- Espero que não haja confusão, quando alguém precisar de uma certidão de alguma desses registros perdidos.

Passado algum tempo, a cidade inteira sabia da história do livro. Aí aconteceu o primeiro caso, a mulher descobriu que o marido tinha uma amante e ameaçou a separação.
- Vou deixar você, cabra safado, descobri que você tem uma rapariga, desgraçado.
- Tenha calma mulher - dizia o marido, tentando acalmá-la, vamos tentar resolver com calma.
- Calma o que, safado, vou agora mesmo no cartório pegar uma certidão do casamento e entregar pro juiz e pedir o desquite e a metade do que você possui.
- Não adianta mulher - respondeu o marido - melhor ter calma e tentar resolver.
- Não adianta por que, seu bandido safado ?
O marido que sabia de tudo da história do livro , respondeu bem calmo.
- A certidão que você quer pegar, tava no livro que a vaca comeu, então é melhor se acalmar.

Outras vezes que alguém procurava o cartório para pedir certidão sem importância e trabalhosa, Zé Fonsêca, não pensava duas vezes, respondia em cima da bucha.
- Essa certidão tava no livro que a vaca comeu.
A partir daí, sempre que existia dúvida em qualquer evento onde se perguntava, " Ele tem certidão?" , a resposta era sempre a mesma, " Tem, mas tá no livro que a vaca comeu" .

Chl
Ago/2016

sábado, julho 23, 2016

O LEILÃO DE SANTA RITA


Era um dia 22 de maio, dia de Santa Rita, feriado em Santa Cruz e dia do leilão da igreja e da procissão da Santa.
Lourenço que morava na casa da esquina do riacho com a Ferreira Chaves, pela manhã, mandou chamar João de Gan, que morava perto, para lhe pedir um favor.
-João, estou indo à Natal atender um chamado de Seráfico, para uma reunião no escritório de Nóbrega & Dantas. Hoje é feriado aqui, mas em Natal não é.
O que eu preciso de você é que me represente no leilão de Santa Rita, que todo ano eu dou um garrote e nunca, nenhum, saiu da fazenda porque eu mesmo arremato e é uma forma de contribuir com dinheiro para a igreja.
Tire por qualquer preço que quando eu chegar, acerto tudo.Vou fazer o possível para chegar na hora da procissão.
João, tirou o pente do bolso, penteou a cabeleira e disse:
-Pode deixar que eu resolvo.
Pegou no bolso a carteira de Continental, amassou na mão, tirou um cigarro, acendeu e subiu para o Mercado.

Próximo da hora do leilão, Mané da Viúva , já todo pronto, ia saindo de casa quando dona Rosa falou,"Manoel, arranje um peru pra gente comer hoje, que os meninos estão doidos pra comer peru, Romualdo já anda correndo dentro de casa gritando gulu, gulu.....
Mané virou-se e disse:- Deixe comigo. 

Chegou no Mercado, administrado por Anísio Carvalho e o gerente da cisterna, seo Badaneco, já estava tudo organizado e o povo começando a chegar e se sentando nas bancas para participar do leilão.
Pegou o microfone para testar, com a voz aguda e estridente e foi gritando:
-Bom dia, filhos de Santa Rita.

O leilão sempre começava com as doações de menor valor como, cacho de cocos,melancia, melão, cacho de bananas, depois entrava nas galinha, perus, bodes, ovelhas e finalmente nos garrotes. 
Mané,colocou o microfone em baixo do braço, bateu palmas bem fortes e aí um peru começou, glu glu, glu, ele imediatamente, aproveitando que ainda tinha pouca gente no local, pegou de volta o microfone e gritou:-Esse peru já tá fazendo zoada pra atrapalhar o leilão, quem vai primeiro é ele e é 50, quem dá mais ? ninguém ? dou-lhe uma , dou-lhe duas e dou-lhe três, vendido.
O povo ainda tava meio frio, ninguém se manifestou nem deu lance. Os olhos de Rosemilton, chega brilharam  a boca encheu d'água e ele pensando, "hoje depois da procissão, vou comer a moela desse peru. Mané, tinha arrematado o peru e mandou logo um rapaz que trabalhava no leilão levar na casa dele.

Mané da Viúva, foi o maior "chamador"de leilão que conheci em toda minha vida. Tinha uma voz aguda, estridente que nem precisava de microfone.
Dizia piadas, brincadeiras, dava "gaitadas"(risadas longas) , animava e levantava o astral de todo mundo que participava do evento.

O leilão transcorreu normalmente, com grande participação e chegou nos garrotes. 
-Um garrote, doado por Zé Lino da Baixa-Verde, João Umbelino do Chapado,Zé Dantas do Mazaú, Benedito de Chana da Várzea Grande, Zé Carneiro da Pedra, Zé Tororô da Pedra,Afonso Boca Rica da Oiticica, Antônio Lourenço Maia do Araraú,Miguel Farias do Bom Jardim, Furtado da Ramada, Antonio Ferreira da Boa Vista, Zé Andrade da Jurema, Nilson Lima de Passagem do Meio, Chico Adriano do Cugi, Raimundo Galvão da Boa Hora, Miguel Cury de São João, Dr.Gentil do Umbuzeiro, Dr.Clodoval da Malhada Grande,João Lourenço de Santo Antônio, Severino Lourenço do Exu, Ivhaí Ferreira do Mundo Novo, Clovis Medeiros das Queimadas, Mário Dantas dos Angicos, Major Dedé de São Joaquim, Miguel Andrade de São Francisco....
E muitos outros, até que chegou em Lourenço de Santo Alberto, João de Gan ficou gelado.

Mané da Viúva gritava:-Um garrote de Lourenço, que hoje não está aqui, mas tem João de Gan, seu cunhado, para representá-lo. E aí João, quanto vale esse garrote, que já deve ser quase um touro ?
João acanhado, sentado numa banca, falou,"dou 100" e Mané,"100 ? é muito pouco, quem dá mais?
Miguel Farias que assistia e era um dos responsáveis pelo leilão, sabendo que Lourenço sempre arrematava os garrotes dele e para aperrear João de Gan, gritou: - dou 200.
Mané da Viúva deu uma gaitada alta e disse:- Êiitaaa, dobrou o preço. E agora João ?

João, tirou a carteira de Continental do bolso, amassou com a mão, várias vezes, tirou um cigarro, acendeu e falou baixo,"dou 300".
Antes de Mané da Viúva falar, Miguel Farias, gritou "dou 500".
Os garrotes eram arrematados em uma faixa de 150 a 300.
João deu um pulo da banca e disse;-Miguel você tá querendo esculhambar o negócio, eu vou é embora. E saiu.
Mané da Viúva arrochou o grito:-Lourenço dessa vez vai ficar sem o garrote, alguém dá mais ? Não? dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, vendido pra Miguel Farias e o garrote vai comer capim agora na Fazenda bom Jardim.

Quando papai chegou de Natal, procurou logo João e foi dizendo,"quanto é que tenho que pagar do leilão?" João disse, "eu não tirei não, que ficou muito caro e Miguel Farias esculhambou o negócio, botando o preço lá pra cima.
Papai perguntou, "e o dinheiro era seu?"
Depois procurou Miguel, que disse que não queria o dinheiro, queria o garrote.
Eu mesmo entreguei um belo garrote Tabapuã, que ele usou como touro por muito tempo.

Chl

Jul 2016

sábado, julho 16, 2016

MARIA GORDA

Maria Gorda, era dona do cabaré mais famoso de Santa Cruz, tinha alguns concorrentes, mas ela era a casa mais frequentada. Os maiores concorrentes, eram, Chicó de Maria Anjo, o Copacabana de Michael e Gonzaga de Chio.

Existem muitas histórias do cabaré de Maria, que envolvia personagens da cidade.
Uma delas, um funcionário do BNB, que adorava uma cervejada e ouvir música, mas era casado, frequentava as festas sociais da cidade e tinha uma mulher muito braba. 

Um dia, começou a beber no BNB Clube e quando foi anoitecendo, resolveu continuar a farra, em Maria Gorda. Chegando lá, sentou-se numa mesa pediu umas  cervejas e começou a beber e ouvir música.
Com a demora de chegar, a mulher, que sabia que ele estava no BNB, dirigiu-se pra lá, para levá-lo pra casa, pois ela sabia que ele gostava de emendar na bebida. Não o encontrando no clube, perguntou se alguém o viu e a mulher de outro bancário, em solidariedade, disse que ouviu ele dizendo na saída, vou tomar uma lá no gango de Maria Gorda e vou pra casa. Ela se informou onde era o gango e partiu pra lá. Passou de frente a igreja, se benzeu, pediu perdão a Deus, se por acaso houvesse uma morte, passou na esquina de Edvaldo e desceu pra lá.

Chegou na porta , perguntou se ali era Maria Gorda, disseram que sim e já começou a juntar gente. Ela pegou os três filhos pequenos e foi entrando, viu uma mesa com umas cervejas e vários copos, sem ninguém sentado. Os amigos quando a viram correram e ele tinha ido ao banheiro, quando voltou que viu ela sentada na mesa, correu pra lá e foi gritando:
-Você tá louca, o que é que você tá fazendo aqui ? Ela respondeu:
-Vim tomar uma cervejinha com você e dar um lanche pras crianças, pense num barzinho animado.
Ele pegou ela pelo braço e saiu puxando para o carro com as crianças, e sumiram.

Eu gostava muito de Maria e ela gostava muito de mim, ao ponto de nas minhas farras até na madrugada eu me dirigia pra lá, ela separava um quarto pra mim e dizia, "Jeci, dê um copo de leite a Chaguinha e não deixe as meninas perturbarem ele não, que ele já tá muito bicado e quer é dormir.

Quando os meus amigos iam para a fazenda, correr atrás de boi, no final da tarde, quando voltávamos, íamos direto pra lá. Uma mesa perto do balcão com cerveja ,tira-gosto e música de Waldick Soriano. 
Ela avisava logo as meninas:-Não vão naquela mesa não, que eles vieram só pro bar, e a conta é grande, façam o trabalho de vocês com os outros fregueses.

Numa dessas vezes, chegamos por volta das oito da noite e começamos a beber,ela chegou perto do meu ouvido e cochichou,"Vocês só podem ficar aqui até as 10h" por que? eu perguntei, ela me disse, "ordens do Capitão Pereira, tem que fechar 10h". Quando deu 10h ela fechou tudo e eu disse, "Maria, bote a música baixinha, apague as luzes do salão e nós vamos para um quartinho lá atrás e Jeci fica colocando as cervejas por cima da meia parede",assim fizemos.
Éramos eu, Eduardo Tabica e Gondim Bagadinho. Ficamos os três ouvindo Waldick e tomando as cervejas, sentados em uns tamboretes.
Escutamos um barulho forte e olhamos para o portão dos fundos que foi derrubado com um chute e entraram dois soldados:
-Vocês estão presos, por ordem do capitão. 

Eu argumentei, "amigo aqui é propriedade particular, eu aluguei esse quartinho e você só pode entrar com um mandado". Ele disse:-Eu não quero nem saber, ordem é ordem.
Na mesma hora Gondim puxou do bolso, uma carteira de oficial da reserva do exército, NPOR, e apresentou e foi logo falandro:-Enquadre-se soldado, sou um oficial do exército. 

Confesso que gelei e pensei, agora vamos presos mesmo, mas os soldados se enquadraram  bateram continência e um cabo falou - Permissão pra me retirar.
Gondim respondeu, "saiam daqui e não olhem nem pra trás."Na mesma hora, entramos no carro e fomos pra casa da rua do riacho, onde eu morava.
No dia seguinte, 5 horas da manhã, chega Maria Gorda lá em casa, gritando na calçada:-SEO LOURENÇO, SEU LOURENÇO......
Papai saiu, "o que foi Maria, uma hora dessas"?
-Chaguinha teve lá em casa ontem com uns amigos, depois das 10h e o capitão mandou prender as meninas todinhas, lá de casa.
Papai disse, "fale com João de Gan, que é amigo do capitão, que ele solta".
João soltou as meninas.

No carnaval, a  criançada ia para o Trairi Clube, na matinê e um belo dia chega Maria Gorda com os filhos pequenos na porta do clube, foi um reboliço grande de algumas senhoras da sociedade, querendo impedir a entrada dela e dos filhos. João de Gan, era o presidente do clube e foi chamado imediatamente. Chegando lá, pegou Maria pelo braço e as crianças dela e levou pra dentro do clube e disse, "pode trazer seus filhos todos os dias de carnaval, com ordem minha, o cabaré é lá e aqui é pras crianças brincarem".

Teve um tempo que eu criava muitos bodes lá na Serra do Espinho e um dia Helenildo do restaurante, falou pra me comprar um carrada de cabritos. Negócio feito pegamos os cabritos em um caminhão e mandamos direto para o matadouro. Eu disse, "Helenildo, vá pesando os cabritos e de vez em quando mande um fígado e um coração ali pra Maria Gorda, pra tomar com cerveja, que eu vou esperar lá". Nesse dia quem estava comigo lá era o amigo Hugo Tavares.

Antes de ir pegar os bodes eu passei lá em Maria, que eu vivia muito no matadouro e preveni pra ele comprar uma grade de cerveja e botar no congelador. Começamos a tomar cerveja com coração, fígado e rim dos cabritos.
Quando terminou tudo, Helenildo chegou com o peso e eu disse, "Maria, veja minha conta, que eu já vou embora". Ela já tava com o papelzinho na mão e me entregou, eu disse," Maria, que cerveja cara da  bixiga é essa" ?
Ela falou:- São as cervejas, os ovos cozidos (coloridos), a conta do SAAE e a conta da luz, que a coisa tá "rim" meu fíi e eu só posso me pegar com você.
Paguei, feliz.

Uma amiga, Beth Jatobá, certa vez me pediu, "Chaguinha, arranje uns cinco votos pra papai (Bigodão, Bezerra do Acari), pra deputado." Eu prometi arranjar.
Peguei quatro pessoas da minha família e disse pra mim mesmo, vou fazer um teste com Maria Gorda, que ela falou que votava em quem eu pedisse, e fiz o pedido. Por segurança, incluí mais duas pessoas, no caso de falhar algum. Saíram sete votos pra Bezerra em Santa Cruz, Maria Gorda era de inteira confiança.

Como eu ia , praticamente, todos os dias ao matadouro, pesar gado, passava sempre no portão dos fundos da casa de Maria. Um dia, ela estava me esperando. Quando me aproximei, ela que tava sentada num tamborete no portão, levantou e saiu correndo com o braço levantado pro lado do carro. Parei e perguntei, "o que foi que houve Maria"?
-Meu fíi eu tô alejadinha, não aguento mais dormir em colchão de capim, você tem que me arranjar um colchão.
"Tá certo Maria, vou resolver".

Saí de lá, entrei na rua grande, rua da feira, fui lá em Quinha e disse, "Quinha eu quero um colchão e quero um favor. -Pois não Chagas, pode dizer.
-Pegue esse colchão, leve lá em casa, pegue o meu que ainda tá novinho e deixe lá na casa de Maria Gorda.
No outro dia de manhã, quando passei na frente do quintal dela, ela gritou:-Meu fíii, já tô melhor da coluna, você é um anjo, amor.....

Chl
Jul/2016


sábado, junho 04, 2016

HOJE

Infância e  juventude
Inocência e alegria
Perigos constantes
Irresponsabilidade irrestrita
Bebida abundante
Sexo selvagem
Amizades construídas
Formação consolidada
Atravessamos.
Chega um tempo diferente
Filhos e netos
Sabedoria
Alegria planejada
Experiência adquirida
Protegendo riscos
Bebida moderada
Escolhida e selecionada
Sexo maduro, suave
Bem feito, gostoso
Amizades que restaram
As verdadeiras
O pra trás, pouco interessa
O pra frente, nem imagino
Toda a energia e prioridade
Toda intensidade possível
Para HOJE.

Chl
Jun/2016


sábado, março 05, 2016

CARTAS DE BERTENIO III

Chaguinhas,

Hoje veio uma comissão da Secretaria de Saúde do Estado, aqui em casa para me pedir o obséquio de inspecionar algumas casas aqui perto da minha, para ensinar a controlar e evitar os focos de muriçoca que estão tomando conta da cidade. Aceitei a missão e fui montar minha equipe.

Chico Zé, que vive na bomba de Sérvulo e vem muito aqui em casa, tomar um cafezinho, foi um dos que chamei pra me ajudar. O nome todo de Sérvulo, como você sabe, é Sérvulo Orago da Cunha, de tanto Chico andar por lá, ajudando a abastecer os carros, pegou o apelido de Chico Cunha.

Pedi pra Chico, começar por trás da minha casa, na cerca de garrancho do campo 4 de Março e fui me encontrar com Antônio Borges, que é especialista em caçar focos de muriçocas, na esquina da casa de João Lucas. Ele chegou e fomos juntos pela rua da praça, passamos na casa de Manoel Macedo e quem estava na porta era Rita Onofre (Rita Oião) e na casa de João Umbelino, estava dona Severina, arrumando umas mercadorias, para colocar no Jeep dela, que estava parado na frente. Munheca e Roberto estavam brincando de boi de osso no quintal de casa e Umbelino havia saído com o pai para o Chapado.

Seguimos, passamos na casa de Elias, de Dilermando e Dona Beatriz, depois na livraria de Dalva de Melo Lula e chegamos na esquina da casa de dona Ana de Balelê, só quem estava em casa era Nailda, a mãe tinha ido ao Massapê. Na esquina encontramos Elias, com os tambores de gasolina e orientando o trânsito da rua Ferreira Chaves, e ficava falando:-Os documentos de trânsito é com Chico Dadão, mas o controle aqui desta esquina é meu.

Chico Cunha, revisou o avelós todinho, daquele lado do campo, onde as burras de Meireles andavam comendo o capim da beira da cerca, encontrou com Anísio Carvalho e Almeida, o pernambucano, classificador de algodão, que veio pra Santa Cruz, trazido por seu Fiúza, pra trabalhar na usina e que gosta muito de futebol. Estavam esperando o time pra fazer um treino.

Chegou na esquina, na casa de Zé Rodrigues e dona Noca e encontrou Arquibaldo, filho de Artur, pesador de algodão da usina, e começou a inspeção por lá. Desceu, passou em Zé Macedo, tinha uma fila de menino, do Quintino Bocaiuva, comprando poli na janela, passou em Tito, Leni foi quem atendeu e Hildebrando tava ensaiando algumas notas no clarinete na sala, entrou na usina, encontrou Sebastião Vitor, que era o chefe da fábrica de óleo, fizeram a revista e ele saiu pra casa de Zé Pinto, Ritinha foi quem atendeu. Dos filhos só tina Valdir em casa.

Eu e Borginho, saímos da casa de Balelê e fomos pra casa de Manoel Soares, do cartório e Joabel, Manu estava na área e eu brinquei com ele, pegando no lubim que ele tem no braço, dizendo:- Isso é que é muque.
Passamos em Zé Viterbino, depois em Afonso barbeiro, Ribeiro estava lá e me contou que o caminhão de Chinês, com Toinho dirigindo, tinha passado por cima do pé de Marcos, que é muito novinho ainda e tava deitado com o pé enfaixado.Depois passamos em  Zé Andrade, Maria Andrade estava lá e fomos pra casa de dona Inezinha Rocha, perguntei por Miguel, ela me disse que ele estava se preparando para ser naval, ia viajar pra aí pro Rio, quem estava na sala era Marta Rocha e Aparecida de Ivahí, tinha acabado de sair com Tetê.

Do outro lado, Chico passou na fiação de seu Bianor, encontrou com o mecânico Assis Segundo, conversando com Luiz Matias , passou em dona Titi, engomadeira e foi esperar na esquina do riacho, na casa de Inácio pintor, pai de Severino da Burra, dona Gonçala estava em casa cuidando de Salete, que é novinha.

Fui pra casa de Antônio Nunes, que tinha viajado na Lambreta com Maria Rocha na garupa pra Lajes Pintadas, pra vender tecido, encontramos Bila ,Geraldo Golinha, sobrinho dele, brincando com Serafim, as meninas estavam todas em casa, Marilda, Gorete, Betinha, Margarete e Fátima , recém nascida, estava no berço.

Chegamos no escritório da usina e vi, Tota Piçoca e Chuta, catando pluma nas estopas de algodão, no beco do escritório. Encontrei seu pai, compadre Lourenço, conversando com Acácio; Jorge Quintiliano e Socorro de dona Litinha estavam na máquina de escrever. Seu pai me disse que a safra vai ser grande e vai contratar mais gente. Fiquei satisfeito porque ele pediu pra mandar Narcilio, meu filho lá e que também ia chamar o filho de Joca Moreira, Milton, e Lourdes Apreciado, irmã de Maria de Augusto Fernandes e de João Apreciado do caminhão.

Passamos na casa de Neno, que estava na esquina da rua do Burro Seco, conversando com Paizoca, Manoel Freire e Luiz Fernandes, motorista da usina, acertando uma viagem com pluma pra são Paulo. Passamos na casa de Chinês, Cleonice estava lá, com Socorro, Rosa e Graça, Toinho estava em Jeó, fazendo um caminhão de lata com Joaquim Segundo. Passamos em Maria Rocha, estava fechada e fomos pra Artur Quintiliano, depois Jeó e o BNB.

Do outro lado, Chico foi para o armazém de Manoel Santana, entrou no beco, foi na casa de João Serafim e do Cego Acácio, encontrou Didia, Chico e Marola brincando na rua. Entrou por trás, na casa de seu Aquino, encontrou Benedito e Silula, depois foi pra casa de Alexandre Confessor e dona Severina, encontrou Mimi na sala e no quintal estava Edgar, brincando num galamate de madeira.
Foi pra casa de seu Absalão e dona Cabôca, encontrou Zé Crisóstomo, Têca e Mariquinha, depois saiu pra casa de Chico Bento, só estavam, Paulo e Zé Bento.

Borginho achou um foco no esgoto no quintal do BNB, que dava no riacho e colocou veneno pra acabar com o foco. Atravessamos o riacho, passamos na sua casa, depois na casa de Manoel Santana e Maria e na casa de Arnaldo Eletricista, entramos na casa de Euclides Ribeiro e estavam dona Mair, Oswaldo, Leto e Itamar, Sonia muito pequena estava dormindo no quarto, passamos na casa de Pedro Rodrigues, estavam Teté e Mosa e entramos no quintal porque ele tinha umas vacas de leite lá. Borginho achou outro foco e pulverizou.

Chegamos no terreno que dr. Cassio Medeiros está fazendo uma casa pra João de Gan e depois na bodega de dona Mariinha de Zé de Gan, sua avó. João estava sentado no birô da bodega e dona Maria no balcão, Joanize, conversava com Julieta (Lêta), fomos pra Ribeiro e dona Joaninha, no alpendre estava cheio de mercadoria que ele vende na feira. Anita e Tereza estavam sentadas no alpendre. Saímos, passamos na pedra grande e chegamos no lajeiro em frente a Clodoval, pra ver se tinha alguma poça e fomos pra casa grande do Alto.
Clodoval tinha saído para o fomento com Manoel Vital, estava Luzia que nos recebeu e Zé Lopes com um brejeiro na boca, que só com a catinga já matava os mosquitos. Biluca botou a cabeça na porta e correu pro quartinho dela, arrancando os cabelos de um em um. Lá no curral da vacaria, estavam Pataca, Robério de seu Gato, Zé Pinzel , Carrapeta e Pacote, olhando um gado que eles trouxeram da furna.

Chico, já tinha passado na casa de Rosalina e veio nos encontrar, pra fazer um balanço da revista das muriçocas, e voltamos pra minha casa.

Por hoje é isso Chaguinhas, fique com Deus.

Bertênio.

domingo, fevereiro 28, 2016

MENSAGENS CIFRADAS

                                                                 

Um filete tênue
de desejos líquidos
penetra
impulsionado por sonhos
em uma fresta singela
do sentimento distante 
em voz grave
de cochichos
exprime paixões 
com sussurros breves
descreve ternuras
ouvidos atentos
em anseios outros
realizando tudo
em mensagens cifradas.

Chl.

quarta-feira, janeiro 20, 2016

CARTAS DE BERTENIO II

Chaguinhas,

Hoje a notícia não é muito boa, mas mexeu muito com a população de Santa Cruz e deixou muita gente consternada.
Houve um lamentável assassinato, resultante de uma briga de dois agricultores aqui do município.

João do Inharé voltava da feira junto com Bondade, passaram na casa de Chico Bento, no final da rua que você morava, a Ferreira Chaves, para uma prosa com o pessoal que também vinha da feira , tomaram umas bicadas de cana e seguiram viagem.

Passaram pela casa do finado Antônio Henrique de Medeiros (Antônio Calixta) e Dona Maroca, no Alto, onde mora Clodoval, falaram com Luzia que tava na calçada e acenaram para Biluca, que tava sentada num canto do corredor, arrancando os cabelos, um por um e rindo ; passaram na frente da casa de Antônio Justino (Piçoca) e seguiram para a Malhada Grande, pararam na Braúna da Mijada, perto do cruzeiro, cheio de bonecos, pés e braços de madeira, das promessas do povo e subiram a ladeira da casa de Ascendino do DNOCS.

Quando passaram na casa de Ascendino, já existia uma discussão. Diz Carrapeta, vaqueiro de Clodoval, que eles começaram a discutir quando saíram da Braúna da Mijada. Pacote, que estava na beira do rio , pegando umas piabas, ouviu também os dois falando alto. Ascendino tava na calçada, acenou pra eles e só Bondade respondeu, João nem olhou pra ele.

Pois bem, seguiram na estrada do Imbú, atravessaram a estrada que vai pra Currais Novos e pegaram o rumo do Inharé. Sei desses detalhes, porque como Delegado Civi, colaborei com a polícia, a pedido do Tenente Bento de Medeiros, Delegado da cidade. Ainda perguntei à Maria Freire, do Imbu, se ela tinha visto alguma coisa, mas ela não sabia de nada.

Por volta das quatro horas da tarde, chegou um rapaz num cavalo na delegacia e comunicou ao delegado que seu Bondade estava morto na estrada do Inharé, com umas pauladas na cabeça. 

Depois dessas informações que foram colhidas das pessoas que tinham falado com os dois, o Tenente Bento, foi pessoalmente com dois soldados, prender João, na casa dele. João se entregou sem resistência e se mostrava arrependido, pois o efeito da cachaça estava passando. Chegou na delegacia já era boca da noite, mandou chamar meu irmão Severino Dobico, que era o carcereiro e trancafiou o criminoso.

No dia seguinte, o Tenente Bento de Medeiros, mandou João colocar o caixão com o corpo do finado Bondade na cabeça e levar sozinho até o cemitério. Saiu da cadeia, entrou pela rua do Riacho, passou do lado da casa que você nasceu, na esquina da Ferreira Chaves, do lado da casa de Joaquim Pintor, pai de Severino da Burra,onde tem um pé de Flamboyant, que tá florido, na casa de dona Titi, engomadeira, pela usina e subiu a ladeira da maternidade até o cemitério, onde colocou o caixão na cova, com a ajuda do coveiro, mas enterrou sozinho. 

Por hoje é só isso, não é uma boa notícia, mas você precisava saber.
Todos nós ainda estamos chocados.

Grande abraço do sempre amigo,

Bertênio.

segunda-feira, janeiro 18, 2016

CARTAS DE BERTENIO

Gostei tanto dos escritos do jornalista , meu amigo e conterrâneo Rosemilton Silva, com suas conversas com a cumade Maria Gorda, Michael, Gonzaga e outras figuras folclóricas de Santa Cruz, que resolvi escrever cartas fictícias como se fossem as cartas que recebia e escrevia para Berthênio.

Berthênio era como eu chamava meu querido amigo, José Piscínio de Oliveira ( Zé Dobico),de Santa Cruz, que trocava correspondências comigo, nos idos de 1965/66, quando eu era estudante no Rio de Janeiro.

Querido Chaguinhas,

Aqui está tudo bem, todos com saúde, graças a Deus, só a minha responsabilidade que aumenta, cada dia , mais.
Como você sabe, sou quase vizinho de Dr. Aldo Pessoa, Juiz da nossa cidade, que você conhece muito bem, até mais do que eu.
Pois veja você, Dr. Aldo, quando não está no carteado lá no clube, no jogo de Belízio, junto com Miguel Farias, Pitico, Antônio de Hosana, Zéluce, Josias Azevedo, Zé Aurélio, está em casa, aqui na praça e não aceita barulho de tamanho nenhum , no toca-fitas dos carros. Ontem esteve aqui na minha casa e deu uma ordem:
- Você , seu José Dobico, como Delegado Civil , tem o dever de coibir esse abuso, dos rapazes nos bares, com o som do carro muito alto.
Eu respondi na hora,-Pois não excelência, vou tomar minhas providências.

Chaguinha, hômi de deus, primeiro, procurei saber o que mulesta era "coibir", que eu soube que era "empatar" os meninos de fazer zoada, depois fiquei até de noite, na hora que eles encostam no Bar do Ponto, para tomar minhas providências.

Você sabe que eu só permitia você , naquele fusca branco, fazer uma zoadinha, pequena, aqui na frente, primeiro porque é filho do meu compadre Lourenço, que além de ser meu amigo, foi meu hóspede, quando era solteiro e depois porque você namorando com a filha do Juiz eu tenho mais moral pra dizer a ele, que é gente de casa, mas outros cabras, principalmente de fora, não vou permitir.

Pois num é que ontem de noite, eu já tava quase cochilando, quando chegou correndo, aqui em casa, Caldo de Batata, filho de Dr.Aldo, dizendo que tem uma Kombi, com placa de Cuité, com o som nas alturas, em frente ao Big Bar, o bar dos meninos de Barros Pretos de Lajes Pintadas.

Imediatamente mandei Neífe que estava conversando aqui na calçada para avisar ao dono do carro, para baixar o som. Neífe, voltou e disse que o cara não ia baixar. Na mesma hora pedi a Neífe para ir até à delegacia  falar com o Capitão Pereira, para enviar uma guarnição da PM.

Esperei uma meia hora e chegou Neífe com a guarnição na minha casa: O Sargento Pacheco, o Cabo Miguel e o soldado Andorinha. Eu imaginei na minha cabeça, "agora vai".
Na frente do pelotão me dirigi para o bar, passei na frente da casa do Juiz, ele estava sentado na sala, esperando o resultado. Lá em casa, Mariinha foi tomar uma garapa de rapadura, pra se acalmar e Do Céu, sua querida amiga, ficou olhando na janela, agarrada com um terço, rezando.

Quando cheguei lá, dei a ordem, -Baixe o som do carro ou faça o favor de se retirar, que está perturbando a ordem pública. O cabra perguntou:
- E quem é o senhor, com essa autoridade toda ?
-Sou, José Dobico, Delegado Civil da cidade e estou com uma guarnição da Polícia Militar. Aí, tomei um susto quando Pacheco gritou:- Sentido, apresentar armas, para Cabo Miguel e Andorinha, um com um revólver 32 e o outro com um cassetete.

Foi quando, para minha sorte, o cabra falou, - Ah! seu Zé Dobico do hotel, sou filho de Ascendino de Cuité, que conhece o senhor e se hospeda lá quando vem fazer negócio aqui. Vim deixar um dinheiro de agave e aproveitei pra tomar uma aqui no bar, mas já tou indo embora.
Aqui sim, tem moral, lá em Cuité é uma esculhambação, a zoada dos carros nas bodegas.
Foi-se.

Do Céu manda lembrança e está lhe esperando pra tomar o cafezinho que você gosta. Receba meu abraço e fique com Deus.

Seu sempre amigo,
Berthênio.


domingo, janeiro 17, 2016

A VIAGEM DE GERALDO COSTA.

José Ferreira de Medeiros, Zé Dadá, era farmacêutico e foi vice-prefeito de Santa Cruz, quando o prefeito era João Bianor Bezerra.
Casado com Tereza Medeiros, Zé Dadá era o pai de Carluce Medeiros, Celúzia , Joseluce, Feluce e Celuta e morava na Praça principal da cidade.
Feluce Medeiros, assumiu a farmácia de Zé Dadá e dirigiu por muitos anos.
Casado com Ana Maria Damasceno, filha do comerciante Zé Dadão, que era uma das moças mais bonitas de Santa Cruz.

Vizinho de Sebastião Rocha, Bastião da Farmácia, na Rua Grande, Feluce começou a sentir o peso da concorrência.
Bastião chegava cedinho na farmácia e só saía quando anoitecia, trabalhava muito, permanentemente com um charuto na boca, ora fumando, ora mastigando, ele consumia uns três ou quatro por dia.
Atencioso, muito trabalhador, profundo conhecedor do ramo que trabalhava, Bastião foi tomando conta da freguesia.

Um belo dia, Feluce resolveu se desfazer do negócio. Ana Maria tinha um comércio de confecções, bem movimentado na praça.
Ele tinha uma propriedade no Catolé e resolveu investir lá. Foi ao BNB, para fazer um financiamento para o sítio. Fez o projeto, levou toda a documentação necessária e pediu o empréstimo.

O banco, como é de praxe, colocou o projeto para análise e indicou um fiscal para visitar a propriedade, Cordeiro.
Cordeiro pessoa muito querida na cidade, foi à praça de carros de aluguel, para alugar um carro, e fazer a vistoria do sitio ; escolheu o jeep de Geraldo Costa. Acertaram tudo para no dia seguinte cedinho fazerem a viagem.
No outro dia, logo cedo, Geraldo tomou um café no Galego da praça, para colocar os assuntos em dia e foi para a casa de Cordeiro, que era vizinha ao banco.

Cordeiro já estrava pronto. Perguntou:
-Seu Geraldo, quer tomar um café? Não, obrigado, já tomei no café do Galego de Noêmia, respondeu Geraldo.
Galego era filho de Noêmia e Luiz Dadá, primo legítimo de Feluce.

Entraram no jeep e saíram. Cordeiro puxou logo assunto:
-O senhor conhece bem a região ?
Geraldo deu uma risada gostosa e disse :- Doutor Cordeiro, eu sou daqui, da família Costa, que tem terras no Araraú, Baixio do Roçado, Oiticica, Pedra Grande e Tanquinhos, até o Pau de Leite, divisa com Sitio Novo, tudo "anêxo" da região que nós vamos.
Geraldo viu que Cordeiro ficou boquiaberto com o conhecimento dele, aí apurou-se.
- Nós vamos pela Terra Firme, que é na entrada da Furna, mas entro pelo açude do Alívio, passamos na Glória, perto do Imbu, entramos no Feijão de Dr. Paulo Galvão, casado com dona Cleonice, filha do Desembargador Tomás Salustino , aí chegamos em São Joaquim, do Major Dedé, José Henrique Dantas de São José de Mipibú, mas quem toma conta de lá é dona Zuleide, filha dele e o gerente é Inácio Gouveia, o vaqueiro é Zé Malhada e quem faz as selas e os arreios lá, é Catoco.
Cordeiro ficou impressionado com tanto conhecimento.

Geraldo continuou falando da região:
- Depois de São Joaquim tem os Angicos de Mário Dantas, primo do Major Dedé e a Pedra Bonita , onde moram , Miguel Vicente e Severino Machado, mas antes, tem o Catolé, para onde nós vamos.
- Então vai ser fácil essa vistoria, disse Cordeiro, você conhece tudo. Você conhece bem a propriedade de seu Feluce ?
- Como a palma da mão, respondeu Geraldo.
- E é grande, insistiu o fiscal.
- É grande, doutor.

Depois de passar em todos esses lugares, finalmente chegaram no Catolé.
Passaram em frente a casa de Batista e entraram à direita em direção ao sítio, quando logo na frente apareceu a porteira. Cordeiro desceu, abriu a cancela e imaginou, "vou passar o resto do dia aqui, ele disse que o sitio era enorme".
Quando voltou para o jeep, Geraldo engatou a primeira, fez uma curva numa estradinha estreita, desceu uma ladeira e quando subiu em outra, apareceu outra porteira. Cordeiro já ia descer para abrir quando Geraldo, com um arzinho de riso, disse:- Pronto, terminou a terra.
- Ôxente, você não me disse que a terra era grande .
Aí Geraldo, em cima da bucha, confirmou:
- E é, pra baixo, vai bater no Japão.





terça-feira, outubro 20, 2015

GLOSA

     Mote

Quero ver um altar de flores
Aos pés de Santa Rita

Glosa

Para salvar o ambiente 
Vou começar a plantar
Pedir e incentivar
Numa luta diferente 
Com amor muito contente
Como se fosse uma dita
Minh'alma no peito grita
Transbordando de amores
Quero ver um altar de flores 
Aos pés de Santa Rita.

Chl.
Out/2015.

segunda-feira, setembro 28, 2015

GLOSA

A beleza do luar
Quando é visto da terra
Tem um encanto que encerra
Meu desejo de amar
E a vontade de abraçar.
Como vinho de boa uva
Uma bela mão sem luva
E meu coração se encantando
A lua partiu chorando
Deixando a noite viúva.

Chl
Set/2015

quarta-feira, julho 15, 2015

MINHA ESCOLHA

Em 1965, aos 15 anos, fui para o Rio de Janeiro, estudar. Seria interno no Colégio São José, Marista, na rua Conde do Bonfim, no Alto da Tijuca.
Concluí lá o segundo grau e fiz vestibular em São Paulo, onde passei na Faculdade de Engenharia Industrial- FEI, em São Bernardo do Campo.
Cursei Engenharia Mecânica, na especialização de Máquinas e Ferramentas. Fiz até o segundo ano e resolvi trancar a matrícula para tentar o curso de Economia, que era um assunto que muito me interessava na época. Deixei em aberto a possibilidade de voltar para concluir o curso de engenharia, se algo não desse certo ou se eu não gostasse do novo curso.

Vinha pra Natal, sempre nas férias. Em 1969, falei com papai para comprar a passagem de avião, só até Recife, que eu teria um negócio pra resolver lá e viria de carro para Natal. Ele estranhou, mas concordou e no dia combinado ele foi com Duda, que era motorista da usina, em um fusca, me pegar no Aeroporto dos Guararapes, no Recife.

Do aeroporto seguimos direto para a Faculdade de Administração de Pernambuco, no encontro da Avenida Conde da Boa Vista com a rua do Hospício, no centro do Recife.

Chegando lá , peguei uma ficha de inscrição para o vestibular de 1970. Sentei no batente da escadaria da faculdade, para preencher a ficha.Papai sentou do meu lado e perguntou:
- O que você veio fazer aqui ? Respondi, "vim inscrever um amigo, para fazer o vestibular de Economia". 
Comecei a preencher a ficha e novamente ele perguntou:
-Esse seu amigo tem o mesmo nome seu? Eu estava preenchendo a minha ficha, mas ele não sabia. Eu disse, -Em casa conversaremos, ele silenciou.

Foi a minha primeira escolha.

Chegamos em Natal e entramos na nossa casa, mas antes que eu pudesse falar com mamãe, ele me puxou pelo braço e nos trancamos no meu quarto.
- O que é que você está pretendendo ? Perguntou-me.
- Quero fazer o vestibular para Economia, respondi.
- Faça o que você achar melhor pra sua vida, me abraçou e saímos do quarto.
Meu pai foi a pessoa mais compreensiva e bondosa que eu conheci.

Fiz o vestibular em Janeiro de 1970 e entrei na Faculdade de Economia da Universidade Federal de Pernambuco, onde me formei, economista.
Fui morar no Recife, mas todos os fins de semana eu vinha pra Natal e aos domingos ia pra fazenda em Santa Cruz, onde comecei a tomar conhecimento das atribuições na vida rural.

No último ano da faculdade, 1973, eu estava procurando estágios na área de economia ou administração e acompanhava junto à Sudene um projeto de Agropecuária que tínhamos na Fazenda Santo Alberto, quando um grupo de colegas me convidaram para fazer um teste em uma empresa de consultoria multinacional, a Arthur Andersen. Recusei, inicialmente, dizendo que não queria um emprego fixo e duradouro no Recife, pois minha intenção era voltar pra Natal.

Houveram muitas ponderações e insistências dos colegas, alegando que seriam quatrocentos inscritos, das Universidade Federal e da PUC-Universidade Católica de Pernambuco, e que seria apenas uma verificação de capacidade, uma vez que era para preencher apenas uma vaga. Algo despertou em mim, talvez o espirito de competição em uma área que estava apenas iniciando, mas na realidade era o desejo de saber se eu tinha realmente alguma capacidade.

Fizemos a primeira prova escrita e ficou apenas a metade dos concorrentes e eu estava entre eles. Fiquei animado. A segunda prova era oral e eliminatória, feita por um executivo brasileiro da empresa. Eliminou outra metade, restaram apenas 100 alunos, mas eu fiquei entre os 100. Mais uma prova oral, desta vez, feita por um executivo mexicano, que atuava no Brasil. Bem mais complexa e extremamente técnica, mas sempre dentro de uma visão empresarial, já que a função da Arthur Andersen era de consultoria em empresas públicas ou privadas. Saíram 80 alunos, mas eu fiquei. Restaram vinte.

A terceira e última prova oral, foi proferida por executivo Inglês, de alto nível e que falava um português arrastado com muito sotaque. Resolveu examinar cinco alunos por dia, com entrevista de uma hora para cada candidato. Eu estava na dúvida porque eu realmente não queria ficar, mas resolvi encarar.
A primeira pergunta foi, "quanto você quer ganhar"? Respondi imediatamente, "dez salários mínimos". Soube depois que foi a pedida mais alta do grupo, pois os outros querendo o emprego, colocaram valores ao redor de cinco salários. Como eu não pretendia ficar, achei que pedindo alto seria excluído.

As perguntas continuaram, em bloco e pedindo para fazer uma exposição sobre qualquer assunto empresarial que eu pudesse ter conhecimento. O assunto que eu lidava naquele momento, era o projeto da Sudene, que tratava de instalações rurais, tipos de capim para pasto e raças de bovinos mais adequadas para criar na minha região, o zebu, nelore ou guzerá. Foi sobre o que falei durante o meu tempo de prova. Percebi que o Inglês, ficou meio boquiaberto.

Uma semana depois, recebi um comunicado pedindo que eu comparecesse no escritório da empresa de terno escuro e gravata, para assumir o emprego e que o salário que eu pedi, seria pago.Passei a noite sem dormir, tinha que tomar uma decisão.

Cheguei cedo ao escritório da empresa no dia seguinte, sem terno e sem gravata e me apresentei ao Inglês. Ele disse que iria mandar me mostrar a minha sala e a partir de agora, dependendo do meu desempenho eu poderia ir ao Rio de Janeiro, para um curso de aprimoramento, depois à Cidade do México e finalmente Los Angeles, o que significava que eu teria que ficar fluente em inglês.Quando ele parou de falar, eu disse:
- Vim aqui me desculpar e agradecer, mas, não vou ficar.
Ele estupefato, balbuciou -Io nom acredito.
Levantei-me, apertei sua mão e me retirei. Soube, depois, que o segundo lugar, que era um estudante da PUC, foi chamado e assumiu. Resolvi que voltaria pra casa e ajudar meu pai e minha família a administrar os bens da nossa família.

Foi a segunda grande escolha da minha vida.

Chl
Jul/2015