segunda-feira, maio 01, 2006

CASAMENTO DE NEZIM COSTA



Manoel Costa, morava na fazenda Oiticica, no limite entre os municípios de Sítio Novo e Santa Cruz.

Filho de uma família de agricultores, tinha nove irmãos e era o mais velho.
Desde cedo começou a trabalhar na lavoura e nas atividades do sítio para ajudar os pais a criar os irmãos. Tirava leite, ajudava a fazer queijo, amansava garrotes para a capinadeira, enfim, como ele próprio falava - faço ,de um, tudo- para ajudar meus pais na lida da Oiticica.

Nezim , como era chamado, gostava muito de trabalhar e era por demais controlado nos gastos. Católico fervoroso, rezava todas as noites para a sua santa de devoção, Santa Rita de Cássia. Assistia três missas por ano, a da sexta-feira da Paixão, 22 de Maio (missa de Santa Rita), e a missa do galo, no fim do ano.

Todos os sábados Nezim, pegava o caminhão de Zé Beijú, para ir à feira de Santa Cruz. Passava na feira do gado para saber como estava o preço do boi, do bode e até de burro mulo, cavalo etc..
Depois passava na usina de algodão para comprar torta de caroço , para as vacas de leite e os bois de capinadeira. Por volta de 11 horas, pegava o primeiro transporte que passasse na fazenda e voltava pra casa. Almoçava, ligava a forrageira e preparava a ração do gado do curral.

Os irmãos mais novos de Nezim, começavam a tomar cachaça logo cedo na feira do gado, depois desciam pro cabaré, pra dançar forró e namorar com as cabôcas novas que vinham de Cuité, Campina Grande e de outras cidades e gastavam o dinheirinho que ganhavam na semana.

As irmãs casaram muito novas e foram mudando da fazenda, umas pra cidade, outra para outros sítios onde moravam seus maridos. Depois, os irmãos foram morar na cidade, trabalhar de pedreiro ou de servente e dois deles foram pra São Paulo, em busca de trabalho melhor remunerado.

Nezim ficou só com o casal de velhinhos , que por ironia do destino, morreram de pneumonia, no frio de Julho. O velho Costa, morreu na véspera de São João e Sinhá Leopoldina, na noite de São Pedro.

A tristeza tomou conta da Oiticica, enquanto durou o luto dos pais de Nezim. Os irmãos vieram visitá-lo, as irmãs davam conselhos pra Nezim, arranjar uma companheira, pra não ficar tão sozinho naquele cazarão.

Nezim que de sexo não entendia nada, nunca tinha ficado com mulher e brigava com os irmãos, quando flagrava algum deles escanchado na jumentinha de carregar água do barreiro, para a serventia da casa.

Um ano depois da morte de Seu Costa, o luto tava desfeito e Nezim resolveu atender o convite das irmãs e foi a uma festa de São João, no Saco de Dentro, terras de João Valentim, no município de Lages Pintadas. Chegando lá, tomou a tradicional "chamada de cana", que ele só fazia aos domingos, antes do almoço. Tomou mais uma e mais outra, com pamonha, milho assado e rolinha torrada.

Nezim, pela primeira vez, sentiu o efeito inebriante da aguardente. Ficou surpreso ao saber como era bom. Quando se deu conta, já estava dançando com Ritinha, viúva de Zacarias Nó Cego, que foi morto a faca, na bodega de Luis Baeta em Saõ Bento do Trairi.
Ritinha, esquentada e experiente, pegou o solteirão pelo braço e levou pro salão, pensando mais nas economias do gajo, do que no homem bom que era ele. Mas, ficou surpresa e contente, quando sentiu nas pernas se avolumar a virilidade daquele fazendeiro que a única vez que sentiu um orgasmo, foi em um sonho, onde acordou assustado pensando que estava tendo uma agonia.

Depois da festa até o casamento, foi um pulo. Ritinha, tinha o nome de sua santa de devoção e fazia ele sentir umas coisas que nunca sentira antes, danado de bom.

A festa foi simples como era ele; com um paletó do seu velho pai ele casou. Foram pra Oiticica, onde Nezim mandou matar um boi erado que estava cevando, com 25 arrobas.
Dançaram bastante, até que Ritinha, com o efeito do conhaque São João da Barra, um afrodisíaco do sertão, pegou o marido pelo braço e levou para o quarto.

Chegando no quarto , na mesma cama que fora de seus pais, Nezim estremeceu. Ritinha percebendo, apagou a lamparina e puxou-o para a cama, já se desfazendo das roupas. O rapaz era só virilidade e não tinha certeza de como fazer as coisas. Ritinha conseguiu traze-lo pra cima dela e o coitado muito desajeitado encostou o peito no seu rosto , como quem quer esconder a vergonha e numa agonia feroz, numa tremedeira violenta, gozou no umbigo da noiva. Foi quando Ritinha cheia de desejo, falou pra Nezim:
- Não é aí não Nezim. É mais embaixo. Nezim retrucou:
- Espere muié, ainda tem um lugázim mió do que esse????

          Chl          
 Mai/2006

                 

domingo, abril 16, 2006

SAUDADES

Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia- Santa Cruz
Foto de Hugo Macedo.


Esta palavra saudade
aquele que a inventou,
no momento que o fez
com toda certeza chorou.

Ela descobre a tristeza
que a nós vem abater,
porém quem não sente saudade,
não sabe o que é viver.

Depois vem o encontro
que a saudade derrota
se não houvese saudade
seria uma alegria morta.

A distância e o tempo
são cúmplices da saudade
sem isto não haveria sonho,
mas só a realidade.

A realidade crua
sem surpresa, sem emoção
seríamos almas de pedra
não teríamos coração.

Sonhamos com o amor
cantamos o amor
vivemos o amor
mas, sentimos grande dor.

Nem todos fazem o bem
nem todos seguem a maldade
nem todos são corajosos
mas todos sentem saudade.

Uns entretem com bebida
outros com certas manias,
eles se valem das lágrimas,
eu me valho da poesia.

Chl
Rio de Janeiro
Jun/1967.

sábado, abril 08, 2006

TARDE DE VERÃO

ACEDO
A tarde de verão
mostra uma grande proeza,
feita por mãos sobrenaturais
com requintes da natureza.
O lindo céu aberto
abraçando o horizonte,
o sol já quase sem forças
se esconde por trás do monte.
As nuvens fazem amontoados
como um imenso terreiro varrido,
perdem todo seu fulgor
quando o sol fica escondido.
É tudo tão perfeito
numa tarde de verão,
como os sentimentos da alma
como a força da paixão.
Chl.
Rio de Janeiro
Mar/1967.

segunda-feira, abril 03, 2006

POEMAS INGÊNUOS

Revendo minhas anotações, resolvi publicar algumas quadrinhas (poemas ingênuos) que escrevi desde 1967 (18 anos), quando inicei escrever poesias .

O AMOR

Inqietude, tentação
traz saudades, faz chorar
nos magoa o coração
é tão sublime saber amar.

Rio de Janeiro
Mar/1967.
Chl.

PERSEVERANÇA

Quem ama se torna criança
para restringir a dor
quem espera sempre alcança
esperarei meu amor.

Chl.
Rio de Janeiro
Mar/1967

BONECA

Feri tua ingenuidade de boneca
por isso te peço perdão,
eu te quiz como uma flor,
ainda és rosa em botão.

Chl.
Rio de Janeiro
Mai/1967.

sexta-feira, março 31, 2006

CREPÚSCULO


A lua
como uma hipérbole
voltada para o infinito
no crepúsculo,
derramava sua luz
na caatinga.
O nordestino
enxada nas costas
corpo doído
esperança n'alma
volta ao lar.
O céu nublado
faz sinal de chuva,
engana !
A lavoura enfolhada
dá sinal de safra,
mente!
O sertanejo
com fome
espera
quase desespera
mas, continua esperando.
Com dez filhos
e a mulher
o amor
é ato contínuo.
Ato que é fato
obrigatório
instintivo
quase até,
animalesco.
No crepúsculo
uma dádiva de Deus
a lua em hipérbole,
cor de brasa,
dar de graça
o luar.
Chl

Jul/1978

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

BOEMIA

Ilustração: Léo Sodré.

Se eu soubesse:
que deixando de ser boêmio
não morreria;
Confesso:
com certeza deixaria.
Como sei:
que mesmo sem ser boêmio
eu morreria;
Afirmo:
vou morrer na boemia.

Chl


Fev/2006

sábado, janeiro 28, 2006

AVENTURAS DE PAULINHO A CORES - BAR DE FÁTIMA



Paulinho é uma figura muito conhecida em Natal, filho de Raimundo Barros , conhecido como Raimundo do cartório, Raimundo perna santa ou Raimundo lombo preto. Era tabelião do sexto cartório, situado no cantão das cocadas, assíduo freqüentador do Bar de Nazir, no Beco da Lama.


Paulinho que só estudou até a terceira série do primeiro grau (diz que não terminou o colégio, porque faltou tijolo), fez um acordo com o pai para que o apurado do cartório na sexta-feira ficasse pra ele. Depois desse dia, ele começou a trabalhar, foi a todos os clientes que gostavam de pagar na segunda, pra dizer que daria mais quatro dias de prazo, pois a partir daquela data só precisaria pagar na sexta.

Depois disso, já cheio de dinheiro no bolso, com a renda polpuda do cartório, arranjou uma namorada muito bonita, chamada Fátima. Rápidamente se apaixonou por ela, que além de bonita e carinhosa era muito experiente no assunto de sexo. Ora, Paulinho a cores (tem um olho cinza e outro verde), também conhecido por Paulinho Feio, ficou encantado com a namorada e resolveu fazer-lhe todos os gostos. Comprou uma casa na Redinha pra ela e instalou um bar na Bernardo Vieira esquina com Hermes da Fonseca, a Quinze. O bar era situado onde hoje é a passarela do “midueimól”.

Fátima que era filha de um soldado da polícia, morava com os pais na Redinha e trabalhava no bar, que tinha um balcão e mesas no térreo e uma mesa de sinuca no primeiro andar.

Antônio Mecânico que tinha uma oficina na quinze, só vivia no bar tomando cachaça e jogando sinuca. Saía pela bola cinco e terminava o jogo de uma tacada só. Com alguns mais afoitos, ele jogava só com uma mão,apostando, e nunca perdia. Só não conseguia ganhar de Paulinho. Quando iam jogar, o taco de Antônio espirrava, ele arriscava bolas fáceis e errava, então, Paulinho tranqüilo, proprietário do lugar, derrotava o mecânico.

Um belo dia depois de uma farra pesada, Paulinho foi pegar Fátima em casa as cinco horas da manhã. Quando chegou na casa dela acionou a buzina do “bugue”, um Selvagem zerado, acordando todo mundo. A mãe dela apareceu dizendo que Fátima havia ido para o bar receber umas bebidas. A côres extranhou: Receber bebida as cinco da manhã ? Mas, resignado foi ao encontro dela no bar.

Quando se aproximou do local, percebeu que o bar estava fechado, mas, como tinha uma cópia da chave resolveu dar uma olhada. Abriu a porta e no térreo estava tudo calmo , não tinha ninguém, foi quando ele escutou um gemido, que a princípio julgou que fossem dois cegos fumando, um passando o cigarro para o outro e se queimando : aiii, uiii, aiiii, uiii......
Resolveu subir à sala do sinuca para checar. Sacou o Taurus 38, niquelado, cano curto e começou a subir os degraus, de costas para livrar o flagrante. No meio da escada ele resolveu espreitar e viu as pernas de Fátima, ainda com a sandália japonesa nos pés, abertas apontando pro teto e no meio delas Antônio Mecânico, com as calças arriadas, saindo pela bola cinco. Foi o suficiente.

Paulinho saiu em disparada,resmungando : -Por isso, que eu nunca perdi no sinuca pra esse filho da puta.
Começou a gritar na frente do bar:- Quem quiser comprar uma casa barata na Redinha, ainda leva um bar de lambuja, com rapariga e tudo.


                  Frei Carmelo
                    Jan/2006

sábado, dezembro 24, 2005

FELIZ NATAL


Acabei de te ouvir
sentí em tua voz
cansaço e dúvidas,
talvez saudade,
quem sabe amor.
Vou esquecer as mágoas
vou esquecer os males
vou viver em paz
vou viver de amor.
Feliz Natal.
Chl
Dez/1985

domingo, novembro 20, 2005

INSPIRAÇÃO

Ilustração: Fábio Eduardo

Onde estás inspiração
te ofuscastes n'algum outro sentimento
o amor, talvez
ou na angústia da espera?
Do frenesi
da doce agonia
que envolve o corpo
até a morte,
que me faz
divagar.
Divagar
como música
como felicidade
como tudo que é bom.
Chl

Abr/1978

segunda-feira, novembro 14, 2005

ACORDAR

Ilustração: Tarsila do Amaral

AH!
Como é bom sonhar
um sonho bom,
feliz.
AH
Como é ruim acordar
para uma realidade,
triste.
Chl
Fev/1979

sábado, novembro 05, 2005

O DIAMANTE


A chuva batia no telhado
caía sobre a planta
que cultivas
a flor que eu ganhei
ainda não murchou
mas, se você disser que pode.....
sob o telhado
o presente é um futuro,
arquitetado no passado.
no inconsciente
lapidar um diamante
gera desamor,
os termos técnicos nos aproximam
e o diamante adormece
sobre meu peito
na frescura do ar condicionado
Chl
Mar/1978

segunda-feira, outubro 31, 2005

FRUTOS DO MAR

Puerto Mont - Chile

Na tarde fria
o cheiro forte
o mar do pacífico
nos Andes, no Chile
na costa de lá.

A barraca de feira
no lago, na beira
na beira do mar.
A brisa serena
o frio danado
em Puerto Mont
aprecio calado
os frutos do mar.
Chl

Set/1979

terça-feira, outubro 25, 2005

A PARTIDA


Numa manhã de sábado
tuas lágriamas,
partiam meu coração
teu andar
leve, macio
dizia adeus,
era despedida.
Em meus olhos
a lembrança
do teu sorriso,
em meu peito
a ternura
do teu amor
em minh'alma
doía o teu sofrer.
Chl
Mar/1977

sábado, outubro 22, 2005

DAVID E GOLIAS

David e Golias (Caravagio)

NA DÚVIDA DO SIM OU NÃO
DAVID REIOU GOLIAS


Pense numa confusão
que está acontecendo
esse tal de referendo
na dúvida do sim ou não.
É um dia de tensão!

Muitas festas, estrepolias
muitas farras e orgias
e o povo todo confuso
vai entrar em parafuso
-David reiou Golias.
Chl
Out/2005

domingo, outubro 16, 2005

A GRUTA

Ilustração Hugo Macedo


O negro da noite
envolve as pedras,
o claro da lua
está pra chegar.
Na água parada
na relva macia,
projeta-se a luz
da gruta sagrada.
Chl
Set/1978

domingo, outubro 09, 2005

MADRUGADA

Foto: Hugo Macedo

É madrugada
a brisa fria
sopra de cheio
sobre a relva:
É primavera.
O cheiro bom
da flor do mato
a relva fria
orvalhada
anuncia:
A manhã
O canto do rouxinol
vem com ela
e canta mais,
no seu ninho
a relva orvalhada:
Diz que é primavera.
Chl
Set/1978

quarta-feira, setembro 28, 2005

EMERGÊNCIA


Manda chuva meu Jesus
qu'é prá muiar
meu sertão
pra nos livrar
da emergência
e da grande sequidão.
Passou de Janeiro a Março
e a chuva não chegou
o povo e o gado com sêde
e as cacimba secou.
Míio plantado cêdo
antes de palmo muchô
o feijão já fulorando
c'um sol quente esturricô.
Os home já tão faminto
e cheios de precisão
o governo aperreado
procurando solução.
O gado cum fome e sêde
tão trilhando os caminho
os home faz as coivara
para ir queimando espinho.
Quando a catingueira desfóia
o pereiro fica pelado
quando mameleiro mucha
o mundo tá desmantelado.
E assim tá meu Nordeste
nesta divina opção
na Bahia muita lama
e aqui só tem torrão.
O povo já tá faminto
saqueando os armazém
furtando por precisão
enquanto a chuva não vem.
O governo mal começado
com um projeto que o diabo
colocou em sua mão,
dá cumê a muita gente
com tanto papel, ôxente
eu acho que não dá não.
Nordestino tá cansado
de vê o tempo passado
sem conseguir seu desejo,
agora nessa emergência
porque não se bota urgência
e se implanta o sertanejo?
Um projetão danado
c'um tanto dinheiro gastado
sem se ver a solução
só dá emprego a dotô
para gastar em papel
e passagem de avião.
O Nordeste no inverno
é sol quente céu azul
e os problemas daqui,
ficam sendo resolvidos,
nos gabinetes do Sul.
Dê recurso e autonomia
aos nossos guvernador
prá vê se algum dia
pelo menos "ameidia"
se vê cheia a "vazia"
do pobre do agricultor.
Jesus te peço de novo
manda chuva com urgência
pra vê se acaba de vez
com o blefe da emergência.
Chl.
Abr/1979

domingo, setembro 25, 2005

O BATIQUE

Candido Portinari -1944

Na parede da sala
um mural de dor
pai,mãe, filho
o cachorro e um burro
a mala vazia
e a fome:
Retirantes.
O homem
magricela
faminto
doentio,
é tão forte
que anda,
sua sombra
se confunde
com um mandacarú
com os espinhos
espetados em sua língua.
A mulher
trapos no corpo
molambos na cabeça
leva em suas entranhas
duas coisas típicas,
do nordestino pobre:
A fome
e uma criança.
A dor e o amor
unidos na miséria.
A criança
se confunde com o burro
e é puxado pelo cachorro,
no peito,
a alegria dos alienados
nos lábios,
o sorriso da ignorância
no andar,
a conformação dos oprimidos.
Os traços negros
mostram o sol ardente
na parede da sala
no batique de dor.
Chl

Ago/1978

sábado, setembro 17, 2005

O MEDO

Ilustração Orf

A luzinha acendeu
a porta se abriu
eu entrei.
Mil olhos
me olhavam
mil gentes
acotovelavam-se
junto a mim,
dentro do elevador.
O medo
estampado
em meu rosto
no fundo
dos meus olhos,
a debilidade física
a ressaca moral
o calor
da segunda-feira.
Eu temia
eu tremia,
o medo
que ali ruisse
a fortaleza
do meu eu,
o medo
que ali cessasse
o prazer
de ser forte.
Interiormente
a vida é uma balela
a estrutura física
é frágil
a mente
é débil.
Mesmo assim
tudo vai subindo,
de repente
pára,
a porta se abre
e eu saio.
Chl
Ago/1979

quarta-feira, setembro 14, 2005

O LOUCO


As palavras do louco
ecoavam na Dr. Barata
"Vocês querem um mundo melhor"?
"Vocês querem um mundo pior"?
"Vocês acham que sou espírita,
ateu,não tenho pátria"?
Fui andando sem resposta.
Não sei se é um louco
ou um bêbado
não sei se queremos
um mundo melhor
ou pior.
Nem sei se sou espírita
ou ateu,
Talvez, esta seja a minha pátria
...............................................
...............................................
Também não sei ...............
Chl.
Ago/1979

domingo, setembro 11, 2005

TRABALHADOR DE ESTRADA


O sol se pondo
com raios frios
em agonia,
a lua no crepúsculo
se enche de fantasia
e a noite quer começar.
Na estrada
a margem estúpida
insiste em se sujar
e o homem, bóia-fria
está ali para limpar.
Na barraca de lona
as redes estão armadas
de lá para cá
de cá para lá.
Os homens de capacete
e roupas iguais,
cor de laranja
já desbotadas,
sentados nas pedras
sentados no chão,
esperam à beira do fogo
que esquente o feijão.
É feijão e farinha
é rapadura e só,
um pouco de água
e a dor no corpo
o homem se deita cansado
e dorme a noite toda
sem pensar nem em sonhar.
A lua ainda bonita
agora parece mais fria
o seu brilho prateado
está em leve agonia,
a madrugada se dissipa
com o sopro da ventania
um raio de sol desponta
traz consigo um novo dia.
O homem volta pra estrada
pra cuidar do seu asfalto
pra limpar a sua margem
desde baixo até o alto,
ele está sempre calado
trabalhando pro progresso
cuidando do automóvel
que um dia nesta estrada
lhe matará atropelado.
Chl
Ago/1979

sábado, setembro 03, 2005

CONTRACULTURA

Tela de Valderedo

A mente humana
hipnótica e submissa
se forma pela cultura
imune, púdica
religiosa e desumana.
Corpo são, mente sã.
O corpo não pode sentir "coisas"
que a mente não deve pensar
para não se tornar suja
pecadora,
pecar por pensar.
Entre o sentimento físico
e o pensamento proibido
cria-se o trauma
a tara
o pensamento livre
da mente sã.
As manifestações corporais
do corpo são
são a própria pureza
e simplicidade
do esperma humano.
Chl
Jul/1979

sábado, agosto 27, 2005

CARRINHO DE FEIRA


Na noite negra
de madrugada fria
ouço o rolar.
Como se na caatinga
o carro de boi viesse
com muito gás no "cocâo"
a cantar, cantar....
Qual nada,
era a roda
de um carrinho de mão
guiado por um menino.
Na cama quente, deliciosa
um copo de leite com espuma,
na rua,
o menino da feira
boca amarga
estômago vazio
a procura de dinheiro.
O carrinho enche
sua barriga ôca
abacaxis
mangas
laranjas
bananas
tomates,
e o menino aspira
seu almoçar.
Sem abacaxis
ele recebe
a cédula velha
de um cruzeiro
rasgada,
desvalorizada
e volta
em busca doutra carga
para aspirar
seu almoçar.
Depois,
volta pra casa
roda calada
denuncia a tristeza
do dono menino
do carrinho de feira.
Chl
Set/1978

quarta-feira, agosto 24, 2005

CAMINHO DA DROGA



Lembro da primeira vez que bebi pra valer, no dia do meu aniversário de 15 anos.Acho que bebi duas ou três doses de Ron Merino com Crush. Foi o suficiente.Fiquei completamente embriagado.
No carnaval, na sede velha do América Futebol Clube, levei uma lança perfume Rodouro, um recipiente de latão dourado, com um dispositivo na ponta para liberar o gás. Munido de um óculos de plástico, imitando o Ray-Ban americano, amarrado com um elástico para evitar levar um jato de lança perfume no olho.No meio do salão, pulando ao som de vassourinha, mirava nos olhos dos amigos e jogava perfume para atingir o olho e deixar ardendo o resto da tarde. Um amigo, um pouco mais velho do que eu, pegou no meu braço e falou,
-Não faz isso, não estraga a lança.
-Porque ? Perguntei.
-Coloca aqui na cortina que vou te mostrar pra que serve.
Shhiiii, ensopei a cortina, no canto do salão, na sede antiga do AFC, perto do corredor dos banheiros.Ele agarrou a cortina com as duas mãos e colocou no nariz, aspirando com toda força; fiquei assustado quando vi ele despecando com todo o corpo no chão. Imaginei: morreu.Logo logo, ele levantou e pulando alegremente no salão, me disse cheio de convicção:- É pra isso que serve.
Terminou o baile do domingo de carnaval e eu fui pra casa pensativo, querendo experimentar,mas com medo de desmaiar.Foi só o que deu. Parei no canto de um muro perto do seminário São Pedro, tirei o lenço do bolso e sapequei lança, até ensopar.Coloquei no nariz e logo tirei porque era gelado e eu não agüentava. Fui me acostumando, até que aspirei com todo fôlego. Escureceu tudo. Apaguei.
Quando acordei, minha cabeça doía muito e meu Deus, eu estava todo mijado.Passei a mão na cabeça, tinha um galo enorme.Quando cheguei perto de casa, todos estavam na calçada pra ver os papangus que passavam e o corso dos blocos. Entrei correndo e cantando tanranranran, o frevo vassourinha,direto para o banheiro pra ninguém notar que minha bermuda estava toda molhada de mijo.
Depois de algum tempo, já acostumado com a bebida alcoólica, já tomava Rum com coca-cola, cerveja e um pouco de aguardente, resolvi inventar de fumar.Comprei uma carteira de Cônsul, porque tinha um gostinho refrescante, e eu tinha que mostrar que tava virando homem, pois meus amigos todos já fumavam.Não me dei bem com o cigarro, na metade da carteira, dei a primeira pessoa que encontrei na rua; a partir desse dia eu não mais suportei cigarro e se colocasse um na boca, passava o resto do dia cuspindo.
No limiar da década de 70, eu já bebia tudo, e tomava muito porre de lança, só não conseguia fumar, mas não me incomodava se alguém fumasse do meu lado.
Um certo dia já com muito uísque na cabeça, me apresentaram um cigarro de maconha, duvidei pelo fato de não gostar de cigarros, mas encarei. Peguei o bicho na ponta dos dedos, tentando imitar os outros, e enchi a boca de fumaça, sem saber se engulia, soltava, ficava esperando desaparecer por si só, até que tive um acesso de tosse e soltei tudo. Escutei os comentários: - Esse cara é careta , é sujeira,melhor deixar pra outra hora. Confesso que depois me acostumei, só não aprendi a tragar até hoje, tampouco falar com o peito cheio de fumaça.
Bebia praticamente todos os dias e na época de férias, de final de ano,então o consumo era dobrado. Um belo dia apareceram dois caras vindos do Rio, com uns papelotes de cocaína; eu nunca tinha visto como era.Depois de muita conversa, resolvi comprar e experimentar.
Era feito todo um ritual, espelho debaixo de um abajur, lâminas de gilete para estirar as carreiras e uma cédula de dólar enrolada feito um canudinho para aspirar. Observei como era feito e em seguida coloquei o canudinho no nariz e aspirei a carreirinha de pó.Não senti absolutamente nada a não ser um gosto de tinta na boca e fui aconselhado a passar as sobras do espelho nas gengivas, como se joga o resto das hóstias no cálice de vinho.Saímos pra farra.
No dia seguinte eu fiquei pensando durante muito tempo.Jamais tive uma sensação tão boa em toda minha vida. Era como se todos os problemas não existissem mais, e toda euforia e alegria tomava conta de você.Resolvi que decididamente não queria mais aquilo, pois sabia que não era real, era fictício e perigoso e numa atitude sensata de equilíbrio abandonei para sempre, algo que eu achei fantástico.
Fiquei apenas bebendo muito e no carnaval continuava cheirando lança; na ressaca tomava gluco-energan com fostimol e energisan (nem sei se ainda existe hoje), a noite tomava reativan pra aguentar o repuxo do baile do clube.
Sobrevivi, hoje tomo cerveja gelada e de vez em quando tomo uma meladinha com caldo de dobradinha no Beco da Lama.
                 Frei Carmelo
                   Ago/2005

sábado, agosto 20, 2005

O FETO

O que é que tens
nessa barriga
que se agita
que tu afagas.
Fico curtindo
tua barriga
que cresce
aos poucos
como uma flor
que desabrocha.
Em tuas entranhas
cresce um filho
do amor, é claro
e nove meses
de quarentena
como se lá fora,
a liberdade existisse.
Chl.
Dez/1978

quinta-feira, agosto 18, 2005

A TENDA DO CIGANO

Foto : Hugo Macedo

Descia pela ladeira do sol , era sexta-feira , em busca de aventuras nos bares da orla. Pegou a direita no clube Bandern, seguiu por Areia Preta passando pelo “bate papo” foi até o “é nosso” e encostou no “iara bar”.
Pediu uma cerveja, estupidamente gelada, pra lavar. Nas mesas algumas pessoas bebiam e fumavam muito, mas, não viu ninguém conhecido, pagou a cerveja e saiu de volta no caminho da Café Filho , chegando no girador da rua , sentiu vontade de ir ao “puteiro”, logo à esquerda vizinho ao bar “castanholas”, mas preferiu encostar no Chaplim que era o bar mais badalado.
O bar estava cheio de gente e numa mesa no canto estavam Paulo e Roberto, dois amigos das freqüentes noitadas.
A mesa ficava encostado na balaustrada do lado do mar, e as vezes salpicos das brumas batiam em você. O clima muito agradável, um pouco frio, por causa do vento marinho que soprava, convidava para tomar uma bebida mais “quente”,destilada ; - Garçon, traz um Teachers duplo, por favor.
Chegou Neuza, uma velha amiga, dá dois beijinhos em todo mundo e senta na mesa.- Alguém tá afim de um baseado ?
-Calma menina, acabamos de chegar.
-E daí! Garçon me traz uma cerpinha. Vocês sabem que tomando minha cervejinha sou “ pau pra toda obra”. Vamos pra boate hoje?
Neuza era uma jovem de 23 anos, universitária, fazia sociologia na UFRN, inteligente, culta, mas, como se costuma falar, meio “porra-louca”. Tinha mania de dizer que topava tudo, que era pau pra toda obra; quando estava embriagada dizia sempre : “Eu sou obra pra todo pau”.
Resolveram todos ir pra Royal Salute. Tina Turner, Barry White, era o som que rolava. No pedestal do DJ, Black Zé, dançava a noite inteira, sozinho.
Dançaram e beberam até as quatro da manhã. E agora pra onde vamos?
-Tenda do Cigano, gritou Neuza.
-Que tal, uma ginga frita no Jangadeiro?
-Você quer ir ver as putas, Francisca, Carioca, Maria Perna Grossa, que vende calcinha na praia! Vamos pra Tenda, tomar caldo a cavalo com batida de amendoim.
Saíram da tenda por volta das 5:30 hs, o sol vinha rasgando o mar, como uma imensa bola de fogo avermelhada.
Neuza cheia de desejos, perguntou: -Você já foi ao Corujão?
-Já, mas agora quero mesmo é ir pra casa dormir.
-E mais tarde ? , Insistiu Neuza.
-Tenho um compromisso as duas horas da tarde, jogar sinuca, disputando cerveja lá no “pé do gavião, na Redinha.
-Tô dentro, respondeu ela se despedindo.

                  Frei Carmelo
                    Ago/2005 

sábado, agosto 13, 2005

O BUGARI



Morreu o bugari,
porque seu cheiro acabou.
A pétala branca
esmaeceu
perdeu a cor
ficou marrom
pálida
quase preta,
o bugari murchou.
Sobre a estante
com cheiro ardente
o caule mergulhado
na água fria
sobre as pedrinhas,
de "alagamar".
A luz ofuscou
e respirou fumaça,
viu os dramas
presenciou felicidade
fez-se forte
e cheirou ardente,
com pétalas brancas
alvejadas pela brisa
que já não existe,
aguentou quanto pôde
sem respirar.
A água fria
estava podre,
as pedrinhas
feriam seu caule,
o bugari sucumbiu
só pra fazer alguém feliz,
a natureza fugiu
e a flor feneceu.
Chl.
Out/1978

quinta-feira, agosto 11, 2005

DJALMA MARANHÃO



Era 1961. Morava na Campos Sales em frente ao seminário São Pedro, que naquela época tinha uma atividade religiosa intensa, além de um grande número de seminaristas. Estudava no Colégio Marista, na primeira série B, onde formamos um time de futebol de salão ao lado de Washington, Bel, Jair, Toinho Barbosa e Alexandre Bebé Chorão, o técnico era Irmão Anchieta.
Fora do colégio, o esporte preferido, era jogar botão; vidro inquebrável, baquelite, plástico derretido, lixa dágua e parafina, eram materiais indispensávais pra se fazer um bom time. Os beques mais fornidos, tinham ângulos de 90° para chutar bola (botão de camisa) rasteira e os atacantes formavam ângulos mais abertos , com um bico de gaita pra chutar alto, cobrindo o goleiro, geralmente uma caixa de fósforos.
Toda manhã ia para o colégio e quase sempre de carona num Bel Air azul,rabo de peixe,do Desembargador Carlos Augusto, junto com Caju, filho do Magistrado;a tarde era pra jogar botão com Avelino Piúba, Vicente Cabelinho, Gatinha, Ariston,Chico Caraolho, Escurinho, Jair, João Felipe,Chico Doido,Lourencinho, David, Dwigth, Iedo e a turma de garotos que freqüentavam o América da Rua Maxaranguape.
Resolvemos fundar o nosso próprio time de futebol de salão, o Corinthians. Fui escolhido presidente.
Na primeira reunião, tratamos de arrecadar fundos para comprar a bola, camisas,calções e meiões; o tênis era por conta de cada um. Demos um balanço nas mesadas e o resultado foi pífio, só dava pra comprar a metade das camisas; tínhamos quer ir à luta.
Reunimos uma comissão com três participantes e fomos ao centro da cidade para pedir ajuda aos comerciantes. Saímos pela Apodi, entramos na Deodoro, João Pessoa e finalmente Avenida Rio Branco, onde se concentravam as maiores lojas de Natal.
A primeira loja que entramos foi na Casa Duas Américas e encontramos logo na entrada o proprietário, um sujeito alto, musculoso,com bícepes se avolumando na camisa de mangas compridas, cabelos inpecávelmente penteados com brilhantina Glostora, era o Sr. Nagib Salha. –Senhor, nós estamos formando um time de futebol de salão e viemos pedir uma ajuda para comprar as camisas.
Nagib olhou de cima pra baixo pra mim, que a essa altura já tremia o corpo inteiro, enfiou a mão no bolso, abriu um sorriso e nos deu cinco cruzeiros. Pegamos o dinheiro e saímos felizes da vida. Em seguida fomos a Formosa Síria, Casa Rubi, Casas Cardoso até que chegamos na Ulisses Caldas, e resolvemos ir à prefeitura.
Chegamos no Palácio Felipe Camarão, por volta das três da tarde, entramos sem ser interpelados e fomos logo subindo a escadaria de madeira. Já no saguão que dá acesso ao Gabinete , uma senhora muito gentil perguntou:- O que vocês desejam?
-Falar com o Prefeito, respondi.
-Olhe ele aí.
Quando me virei, vi aquele homem alto de cabelos pretos ondulados, e me dirigi pra ele; eu estava gelado e tremia todo por dentro.
-O que você quer garoto?Perguntou Djalma,colocando a mão na minha cabeça.
-Senhor, nós fundamos um time e estamos pedindo uma ajuda para comprar o material.
-Time de que, meu filho?
-De futebol de salão, respondeu um dos amigos que me acompanhavam, pois eu já não conseguia falar.
Djalma, abriu um sorriso largo, enfiou a mão no bolso, que me pareceu bem fundo, de uma calça branca de pregas ao lado dos bolsos, puxou uma nota de vinte cruzeiros e me entregou, afastando-se com dois acessores, rumo ao Gabinete.
Saí andando de costas,olhando para aquele homem,que estava de costas pra mim.-Obrigado, balbuciei.
Aquele dinheiro, deu pra comprar nossa bola.

Chagas Lourenço

sábado, agosto 06, 2005

CASA DE DETENÇÃO

Centro de Turismo de Natal
(antiga casa de detenção)

A brisa bate no ferro
da tua grade,
na grade
da tua cela
onde por lei
trocastes
a liberdade
pela vida
que tirastes.
O barulho
longínquo e surdo
da onda
que se espraia
na areia
como se o mar
viesse a ti
indiferente
à lua
que o prateia.
E a bruma
e a brisa
e a lua
e o mar
companheiros de cela,
e do ferro
que a maresia
não come,
que a água
não molha,
mas que,
o visual
diz tristeza
diz dor
e te mostra
solidão.
Chl

Nov/1978

quarta-feira, agosto 03, 2005

O POUSO DO TETÉU

Arpege

Sexta-feira, oito da noite, entramos no aero-willys azul 65, e saímos a procura de um bar, de preferência um bar onde houvesse umas meninas, que pudessem nos acompanhar na noitada. Fomos ao Pouso do Tetéu.
Paramos o carro na Quinze e entramos no bar. –Traga um litro de Montilla e um tira-gosto de primeira.
Levantei fui até o garçom e indaguei se tinha gia, ele respondeu que sim e pediu pra escolher. Fui até um compartimento da cozinha onde havia um pequeno tanque de cimento, cheio de gias.-Pode escolher, falou o cozinheiro. Escolhi duas das maiores, sem pegar com as mãos apenas apontando. O cozinheiro colocou em cima de uma pequena tábua de madeira e com um facão amolado decapitou a rã e em seguida puxou toda a pele deixando-a nua parecendo uma moça no banho.
Voltei pra mesa e perguntei pro gordinho Batista, que estava conosco :-Você gosta de gia?
-Deus me livre, você tá louco? Acho que vou vomitar só de pensar naquele sapo nojento.
Tchuff, cuspiu no chão, temperando a garganta. Foi porisso que pedi um galeto novinho pra tira-gosto, pois sabia que você não comia rã.
A gia vinha em uma pequena travessa, forrada de alfaces, rodelas de tomate,cebola cortada , pedaços de queijo de coalho e azeitonas verdes, ladeados por uma porção de farofa, feita com a graxa da gia.
O prato era tão arrumado, que ninguém conseguia distinguir a rã de um galeto. O gordo Batista comeu até topar e pediu mais dizendo;- Ou franguinho gostoso, traga outra porção .
-Você acabou de comer gia, seu besta.
-O quê? Garçon , vou te matar! É verdade?
-É, sim senhor.
Então não traga mais não seu desgraçado, já comi, agora tá sem jeito.
Enquanto o gordo brigava com o garçon, entraram três meninas no ambiente. Eu estava sentado , encostado na parede, pra me proteger, porque no Pouso do Tetéu, de vez em quando, tinha briga . Na cintura um Smith and West 32, niquelado e cabo de madrepérola.
Convidamos as garotas pra sentar e nos ajudar a tomar o litro de Rum.
Depois de algumas horas, bebendo e escutando música brega, perguntei:-Tem algum lugar bom pra gente ir, conversar mais sossegado e a sós?Leila respondeu:- Tem Margô. Fica ali na dezeseis, perto do King Nigth Club de Rita Loura.
-Então vamos pagar a conta e seguir pra lá.
Quando chegamos, não tinha nenhum movimento na sala de recepções, o bar já estava fechado, apenas um empregado com jeito de viado com as chaves dos quartos na mão, para escolher.
Fui para um quarto no primeiro andar, com Leila, depois de subir por uma escada estreita e escura, pois só havia uma lâmpada no fim do corredor.
Entramos no quarto, ela acendeu um pequeno abajur, em cima de uma cômoda, com alguns vidros de perfume, um talco Palmolive e uma bacia média, onde ela colocou um pouco d’agua que tirou de uma quartinha colocada no chão ao lado da cômoda, pegou uma garrafa de álcool e derramou um pouco na bacia;era para lavar as partes quando terminasse.
-Pode tirar a roupa, foram suas primeiras palavras.
Um pouco acanhado, mas meio embrigado, fui rapidamente tirando a roupa e automáticamente ficando excitado, ao vê-la arrancar o vestido pela cabeça.
-Pode deitar na cama, gosto de ir por cima, continuava Leila conduzindo todo o processo.
-Que coisa grande menino, ela me encabulava e ao mesmo tempo me deixava mais excitado.
Sem nenhum tipo de carícia ou beijo, ela deitou por cima de mim e começou a cavalgar. Em alguns minutos ela já bem excitada começou a gritar:- Chico meu amor, meu macho, eu te quero...me fode....
Em seguida teve um orgasmo estridente e vigoroso que me levou junto, completamente suado e atônito, mas ao mesmo tempo muito gostoso.
Parou. Deitou do lado ofegante, acendeu um cigarro.
-Você é muito gostoso! Disse me agradando
-Eu não lhe disse meu nome, como é que você adivinhou?Perguntei.
-E como é seu nome? Ela respondeu perguntando.
-Chico.
-Chico é o nome do meu namorado e toda vez que eu transo , penso nele pra poder gozar. Ele é soldado do 16 RI, olha a foto .
-Ah bom! falei, olhando aquela foto ridícula do recruta de cabeça raspada.

                Frei Carmelo
                  Ago/2005

segunda-feira, agosto 01, 2005

O PRECONCEITO

Detesto o esperar
adoro o esperado.
Não suporto o julgar
gosto do julgado.
Rejeito o odiar
sinto pena do odiado.
Odeio o rejeitar
suporto o rejeitado.
Sou louco pra amar
morro pra ser amado.
Chl
Ago/1986